A crise anunciada na Unir escancara falta de compromisso com a educação pública

Não é possível que passados três anos os alunos continuem sem papel higiênico e estrutura mínima para funcionamento dos cursos.

Publicada em 18/10/2011 às 05:53:00

Mara Paraguassu, de Brasília

 

A culpa não é apenas do reitor José Januário de Oliveira Amaral, reconduzido ao cargo e até elogiado pelo ministro da Educação Fernando Haddad ao tomar posse no início deste ano. Januário, todos sabem, é recorrente personagem de denúncias levadas a conhecimento do Ministério Público Federal, por isso acumula passivo negativo na vida acadêmica. Está longe, portanto, de associar o título de Magnífico Reitor a alguém que empresta grandiosidade ao ato de dirigir uma instituição de ensino superior. Que deveria estar a serviço da produção do saber, do conhecimento, a serviço da formação de inteligências e lideranças. Não é, infelizmente, o que acontece na UNIR.

O dossiê apresentado pelo Comitê de Greve aos deputados federais, senadores de Rondônia e ao secretário de Educação Superior do MEC não deixa dúvidas da presença das digitais do reitor numa série de irregularidades já conhecidas (inclusive pela CGU), algumas de longa data, mas não se sabe se em algum momento de sua trajetória de gestor ele já teria sido punido por algum malfeito.

Os problemas então vão se acumulando, acumulando, e por força de comportamento clientelista que adota, conforme denunciam alunos e professores, o reitor teria fincado na UNIR uma gestão temerária, incapaz de sanar em tempo célere compromissos assumidos com a comunidade acadêmica e Ministério Público em 2008 mediante a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta, TAC.

Não é possível que passados três anos os alunos continuem sem papel higiênico e estrutura mínima para funcionamento dos cursos, ampliados por conta do Reuni, mas sem condição alguma de oferecer educação com dignidade. Incharam a UNIR, propagandearam sua expansão, mas onde estão os laboratórios equipados e os técnicos necessários ao quadro de pessoal?

Onde está o Conselho Universitário (Consun), uma instância deliberativa, normativa e consultiva, que reúne docentes, diretores de núcleo e campi entre outros? Onde estão os demais conselhos? Por que se permitiu que o reitor adotasse medidas ad referendum? Onde está o MEC? A autonomia universitária não tem limites?

O clientelismo não é mão única. Para sobreviver, e sobrevive no Estado brasileiro com novos recursos e instrumentos, é preciso ação e reação que se alicerçam na troca de favores, de benesses patrocinadas com dinheiro público, para fins pessoais e apoio político, uma cumplicidade que pode ser longa ou breve, conforme os atores e circunstâncias. Na UNIR, essa condição se alonga a olhos vistos, mesmo com a presença máxima de consciências discordantes da gestão nociva praticada na instituição.

Não há um só culpado. Esta é uma crise há muito anunciada, e que escancara falta de compromisso com a educação pública.

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