A melhor homenagem a “Manelão” é botar “Banda” na rua neste sábado

Já uma autoridade do carnaval porto-velhense, não foi por acaso que Manelão tornou-se presidente da “Banda do Vai Quem Quer”.

Publicada em 28/02/2011 às 16:04:00

Por Paulo Queiroz – Do TUDORONDONIA

A perda é por demais dolorosa, mas, na condição de um dos fundadores da “Banda do Vai Quem Quer”, a única certeza que me acorre é a de que a maior homenagem que se pode prestar ao “General da Banda” - que poucos conheceram como o empresário Manoel da Costa Mendonça, mas não há quem não saiba quem foi “Manelão” - é ajudar para não deixar fenecer o maior legado que ele nos deixou: ou seja, para preservar e honrar sua memória, urge que a Banda esteja na rua quando a tarde do sábado deste carnaval chegar.

Já uma autoridade do carnaval porto-velhense, não foi por acaso que Manelão tornou-se presidente da “Banda do Vai Quem Quer”. Mas não se pense que o título o obteve apenas por aclamação. Na verdade, a Banda é produto de uma verdadeira revolução, quase que no sentido estritamente político da palavra.

Provinha, a autoridade de que se falou, do fato de ter sido precisamente “Manelão” o ocupante do trono de Momo em outros carnavais da capital do então Território Federal de Rondônia. Mas como a mesquinhez de tão reduzido número de foliões a que estava circunscrita a corte não combinava com seus ideais libertários, promoveu ele mesmo a insurreição.

O produto desse movimento de contornos para lá de democráticos não poderia se contrapor mais radicalmente à ideia de uma aristocracia. Em vez de uma corte em redor de um “Rei Momo”, dali por diante, qualquer do povo que se lhe desse na telha podia pertencer à nova instituição, muito apropriadamente batizada com este nome de “Banda do Vai Quem Quer”. Mas como quem é rei nunca perde a majestade, tornou-se seu presidente. Não tão republicano porque vitalício, mas também ninguém é de ferro.

Sobrou para nós, que com ele fundamos a Banda. Porque, com toda certeza, isso confere aos portadores desse título de fundador a condição de o mais seleto clube do planeta – não mais que uma dezena, aí incluídos seus dois pilares fundamentais, Manoel Mendonça (Manelão) e Silvio Santos, que, sem blasfêmia alguma, estão para a Banda como Pedro e Paulo para a Igreja.

Colocando as coisas nos seus devidos lugares, se há um jornalista que tem esse título por justo merecimento atende por Evamar Mesquita, hoje mais advogado, embora não tenha abandonado completamente o ofício. Claro que vi a Banda nascer. Freqüentava, junto com o grupo fundador, os bares mais encardidos do lugar, entre os quais essa espelunca chamada “Bar do Casemiro”, onde éramos mais assíduos.


Mas foi Mesquita o responsável pelo primeiro registro da Banda em letra de forma. A Banda ainda era uma idéia produzida por cabeças alegremente encharcadas de alcoóis diversos quando, em meio a mais uma ressaca, todos foram surpreendidos com a notícia anunciando a estréia da Banda no carnaval daquele ano -1981.

Consta que tínhamos sido expulsos do “Bar do Casemiro” - Que bar! O proprietário dava-se ao luxo de expulsar os fregueses quando enchia o saco e no dia seguinte estava todo mundo lá – e fomos parar no auto-explicativo “Choppão” (com dois “pês”). Lá é que foram dados os últimos retoques a uma idéia ora atribuída a Narciso Freire (que a tivera ao ler uma notícia na revista “Manchete” sobre a Banda de Ipanema) ora a Emil Gorayeb Filho, o “Emilzinho”, que vira a banda no Rio de Janeiro e enxergara a possibilidade de reproduzi-la aqui.

É uma questão bizantina, porquanto todos do grupo sabiam da existência da banda carioca, celebrizada primeiro pelo mais retumbante sucesso editorial da época – o semanário “O Pasquim”.

O certo é que, na condição de editor-chefe do jornal “O Guaporé”, que nessa época tinha entre seus redatores Ary de Macedo, João Teixeira, Montezuma Cruz, Jorcêne Martinez, Sérgio Valente e Pedro Sá – destaquei a notícia na metade superior da página em que saiu publicada.

Mas não foi só surpresa que o anúncio da estréia causou. Protagonistas principais da notícia, Manelão e Sílvio Santos ficaram apavorados. E agora? O que é que se vai fazer para botar essa bendita banda na rua? Das duas, uma: ir aos jornais (principalmente aos concorrentes, na época “A Tribuna” e, claro, o “Alto Madeira") dar o dito pelo não dito ou pegar o boi à unha.

Quer dizer, a publicidade foi vital para conferir à idéia um caráter de compromisso. A necessidade, já se disse, é a mãe da invenção. Logo Narciso Freire lembrou que um dos seus vizinhos era ninguém menos que o “Mestre Dantas”, o bravo regente da Banda de Música da Guarda Territorial - conhecida como “A Furiosa”.


Coube ao poeta Sílvio Santos (hoje jornalista “Zékatraca”) compor o hino, ao arquiteto João Otávio Pinto (o grande “Jotapi”) criar a 1ª camiseta e a Manelão assumir a confecção de umas poucas centenas de exemplares. Naquele carnaval, a banda saiu do “Choppão” (José Bonifácio com Duque de Caxias) com algo em torno de uns 400 foliões uniformizados e ao completar o ciclo (retornava ao “Choppão” depois de subir pela Carlos Gomes até a Joaquim Nabuco, descer pela Sete, subir a Rogério Weber e retornar pela Duque, todo mundo a pé, inclusive os músicos) arrastara mais de 6 mil pessoas. E virou história.

PS – Estava terminando este artigo quando me chega o jornalista Edson Lustosa com esta. Uma coisa é certa: pelo menos uma desculpa São Pedro não vai ter para não deixar “Manelão” entrar no céu – dizer que perdeu ou não sabe onde está a chave. Ora, ora, ora...