A mensagem que eu não enviei
No momento certo, a carta chegará às suas mãos. Por meio dela, você terá todas as respostas que há muito me cobra.
Esta semana, alguém me falou que viu você atravessando uma avenida da cidade. Achou-a mais gorda e triste. Não me importei com esse ar melancólico seu. Afinal, estar triste é o seu normal. Mas o fato de estar mais gorda me deixou surpreso. Aliás, você não estava morando em Florianópolis? Veio de férias ou de vez?
São engraçadas as coincidências da vida. Semana passada, durante a noite, sonhei com você. No sonho, você sorria (sorria, mas não estava feliz!) e me cobrava uma carta a qual lhe escrevi, mas que jamais tivera coragem de lhe enviar. Foi uma cobrança tão urgente, tão forte, que acordei. Fiquei no escuro do quarto tentando descobrir como você soube da epístola. Era um segredo tão meu, um segredo tão grave, que seria impossível você ou qualquer outra pessoa saber.
Não se preocupe! No momento certo, a carta chegará às suas mãos. Por meio dela, você terá todas as respostas que há muito me cobra. Não adianta me pedir novamente, principalmente em sonho. Estou mais teimoso do que antes. E, ao contrário do poeta Bandeira que vivia com uma grande vontade de morrer, estou com uma imensa vontade de contrariar. Portanto, não insista!
Ando bebendo mais. Na carta, você saberá o porquê. A propósito, você já soube que retomei as aulas de saxofone? Depois de muita negociação com o síndico do prédio, encontrei um horário em que será possível estudar as escalas e a embocadura do instrumento.
A boa notícia é que você não estará aqui para reclamar do barulho (nunca vi uma pessoa reclamar tanto da vida). A má notícia é que, sem você, eu não terei a quem fazer raiva quando a nota sair mais sustenida que o habitual.
E você? Ainda com aqueles pensamentos de revolucionar o mundo?! Sempre achei mágica sua juventude. Isso me atraiu muito. Eu ficava em silêncio olhando seus arroubos de menina mimada. Mas a juventude também a fazia tomar decisões precipitadas. Tenho recomendações e queixas a lhe fazer. Quando receber a carta, saberá do que estou falando.
Apesar de não ter respondido, recebi o cartão que você me enviou do Rio de Janeiro. A foto ao lado do Cristo Redentor ficou ótima. Por algum momento, olhando a foto, achei que você estivesse feliz. Você sorria tão intensamente, tão gravemente, tão calidamente, que me contagiou e, por um instante, fiquei feliz também.
Não posso aceitar a proposta que você me fez no cartão, tampouco cumprir as promessas que lhe fiz (e foram tantas!). Na mensagem, você saberá o motivo. A carta está pronta, mas aguardo o momento certo para lhe remeter. Afinal, se “o amor não tem pressa e pode esperar em silêncio”, o desamor pode esperar também e com um silêncio ainda mais ensurdecedor.
Theodorico Gomes Portela Neto é procurador da Fazenda Nacional, Professor e Músico. Escreve semanalmente.