Ação Popular: Respeitem Porto Velho!!!

ASSIM FALOU A FLORESTA PARA PORTO VELHO

Publicada em 15/08/2012 às 18:35:00






Do alto da castanheira, despertou Curupira para mais um dia de peleja. Não tardou a coçar as perebas de suas pernas para sentir a paz matinal. Sabia que o dia seria longo, tão longo quanto a sua jornada em direção aos homens. Logo soltou um dos seus ensurdecedores assovios para convocar o seu porco-do-mato. De longa data, esse cateto era o veículo de condução de Curupira. Chegou a hora de partir. A sua luta pela cidade não permitia delongas. Em plena campanha política, a demora em agir se mostrava inimiga perigosa e ele sabia disso.

Depois de ter chupado muitas mangas e percorrido longo caminho, o Protetor da Floresta encontrou um velho homem que, em outras épocas, foi um caçador, mas agora vivia refugiado na mata. O Velho abordou o Senhor da Floresta e perguntou com ar de compaixão: "Aonde tu vais Curupira. Por que tu pretendes se aproximar dos homens? Tu já não conheces demasiadamente a vida fora da mata?".

Curupira não demorou em responder: "Vou alertá-los para o perigo da escolha errada. Um voto pode custar outros quatro anos de sofrimento e desrespeito. Não creio que um Povo possa aceitar por mais tempo a situação em que se encontra a cidade. Há tempos, quando olhei os semblantes dos homens e das mulheres, vi uma insatisfação coletiva. O Povo não aceita mais tanto descaso ao qual é constantemente submetido. Sou apenas a voz que se volta contra uma contradição inaceitável: uma terra de grandes riquezas que sobrevive de migalhas...".

O Velho não desistiu: "Curupira, tu sabes que sou desesperançado em relação aos homens. Isso te inclui, seja o que tu fores. E a ti indago: tu vens também para te empanturrar de riquezas e enganar, como os outros, o Povo? Tu agirás como eles?".

Uma gralha se aproximou lentamente dos dois. De pronto, o Guardião da Mata não permitiu que o pássaro pousasse nos seus ombros e olhou, sem demagogia, para o homem já idoso: "Tolo é você em acreditar nas suas palavras. Tenho como patrimônio alguns piolhos, outros carrapatos e vários bichos-de-pé. Todos vacinados pela Natureza. O porco-do-mato é meu companheiro de estrada. Eu não o largaria por nada. Minha morada é no topo da castanheira. Uma árvore que não tem preço e na qual habita o meu espírito. Se ela um dia cair, eu tombo para não mais levantar. Fazendas, castelos, carros importados, viagens à Europa e comensais: são esmolas que meu espírito não aceitaria. Meu coração é rico demais para ter preço. O vil metal não pode comprar ou corromper a minha dignidade”.

O Velho não perdeu o prumo: "Tu, o dos calcanhares para frente, não te lembras do último que sentou no trono Karipuna. Um homem que andava com uma bandeira vermelha da humildade e que dizia para os quatro cantos da Floresta e da cidade que honraria o cargo para o qual foi eleito. E nisso transformaria a cidade numa Pasárgada da Amazônia Ocidental. Um paraíso à margem do Rio Madeira. Com o tempo, as máscaras não tardaram a cair. O homem que se dizia do bem se tornou um homem de bens, muitos bens. Esqueceu os amigos. Traiu outros. Abandonou a população que o elegera. Sua marca registrada foi o desrespeito. E o cinismo desse homem do mal se mostrou maquiavelicamente proporcional à riqueza que acumulou”.

O Velho continuou: “Curupira, desperta-te: todos que geriram esta cidade não tiveram o menor receio de transformar esta terra fértil em um punhado de pó, para que assim pudessem ganhar mais riquezas. O que tu chamas de vil metal, eles chamam de coração do mundo. Por esse metal, eles vendem, se for preciso, a própria mãe. Não te enganes: ter uma fazenda para realizar os comensais é a ‘esmola’ pela qual todos sonham e lutam”. Depois, suplicou: “Curupira, fica na Floresta para evitar novas decepções”.

A resposta de Curupira não tardou: “Homem de pouca profundidade espiritual. Não faça da sua desesperança apenas o álibi para o silêncio. Calar-se é pactuar com os traidores de Porto Velho. Você se refugiou na Floresta e esqueceu o sofrimento de tanta gente. Lembre que você ainda é humano, demasiado humano. Por isso, também responsável pela cidade”.

Curupira profetizou: “Ao contrário de você, prefiro o embate. Vou lutar para que aqueles que traíram nossa cidade recebam o tratamento devido: o exílio político ou, para alguns, a cadeia. Quanto ao homem que não cumpriu as promessas feitas aos porto-velhenses, ele apenas fez o que quis e quis o que fez. Por isso, ele não escapará das suas responsabilidades. As conseqüências são inevitáveis. Aliás, o julgamento dele já começou. E, quando chegar veredicto, o Povo vai cantar o bordão da Rainha Vermelha: ‘cortem-lhe o bigode e, depois, a cabeça’”.

Após longo diálogo, o Velho não compreendeu que nada convenceria Curupira a ficar. Curupira, por seu turno, olhava o homem com a convicção de que ali repousava a representação de boa parte da população. Assim, chegou o momento da inadiável despedida entre os dois viventes da Floresta. Cada qual seguiria a sua escolha. De um lado, um homem revoltado que ficou atrás do muro do isolamento para não sofrer as agruras de viver em sociedade. Um espírito sensível que não mais se aproximaria dos homens. De outro, um ser que não possuía dúvida de que o engajamento era o único antídoto contra a dilapidação de sua cidade, mesmo que isso custasse substituir a tranqüilidade da sábia castanheira pela vida na floresta voraz do capital.

Curupira observou de longe a silhueta do ex-caçador. Sentiu uma coceira na cabeça, não sabia se era novo piolho ou um pensamento. Mesmo assim, com alegria refletiu: “Pobre alma, a sua sensibilidade não suportou as dores do mundo. Se soubesse que Porto Velho não está morta e que ainda pode sair do beco, esse triste homem também lutaria para que os porto-velhenses não fizessem como ele: fugir da responsabilidade”.

Curupira acredita que o nascimento da tragédia de Porto Velho ocorreu quando o “tanto faz” e o "não é da minha conta" tomaram conta dos corações. Contudo, o destino de Porto Velho é do Povo e o Povo dará a resposta nas urnas e se manterá na eterna vigilância dos eleitos. Ao longe, uma canção vem retumbante da Floresta: “Porto Velho, afasta de ti esses meliantes, afasta de ti essas moscas, anuncia sem medo dos canalhas que aqui moram pessoas decentes”.

Ação Popular: Respeitem Porto Velho!!!