Além do cheiro de pizza, fogo amigo atinge o governador

No relatório, Edson Martins ainda suprimiu alguns trechos do depoimento de José Miguel.

Publicada em 23/05/2012 às 14:12:00

Da reportagem do Tudorondonia

Porto Velho, Rondônia – O deputado Edson Martins (PMDB-Ouro Preto) tem sido alvo de críticas porque em seu voto na reunião da Comissão Parlamentar Processante (CPP) pediu a cassação do mandato apenas do deputado Valter Araújo (PTB-Porto Velho). Para Epifania Barbosa (PT-Porto Velho), Ana da Oito (PT do B-Nova Mamoré), Zequinha Araújo (PMDB-Porto Velho), Euclides Maciel (PSDB-Ji-Paraná), Flávio Lemos (PR-Porto Velho), Saulo Moreira (PDT-Ariquemes) e Jean Oliveira (PSDB-Porto Velho) o relator pediu somente afastamento do cargo por 30 dias. Acontece que isso é o de menos no relatório.
Na ansia de mostrar que o deputado Valter Araújo cobrava propina, Edson Martins, que é o líder do governo na Assembleia Legislativa, acabou atingindo até mesmo o governador Confúcio Moura (PMDB) no “fogo amigo”. Edson citou o depoimento prestado à Polícia Federal pelo empresário José Miguel Saud Morheb, proprietário da empresa Maq-Service. Ele conta só conseguiu receber dinheiro devido pelo governo do Estado depois que aceitou pagar propina a Valter Araújo.

José Miguel, segundo consta no relatório de Edson Martins, contou à Polícia Federal “QUE VALTER deu a entender que o Governador tinha concordado em deixar os contratos de prestação com VALTER; QUE, por várias vezes, VALTER falou para reinquirido que quem mandava no governo era o próprio DEPUTADO VALTER”. É dessa forma que está o texto do relatório.
O trecho do depoimento acaba chamando a atenção para todo o depoimento de José Miguel. Ele contou que estava com quatro meses de pagamento atrasado no governo e que só começou a receber quando pagou propina a Valter Araújo. O empresário contou que tinha um lucro de R$ 200 mil por mes com os contratos e que foi obrigado a pagar R$ 170 mil ao deputado, para receber cada parcela.

No relatório, Edson Martins ainda suprimiu alguns trechos do depoimento de José Miguel. Ele não colocou, por exemplo, a parte onde o empresário disse que poucos dias após conversar com Valter Araújo e ter concordado em pagar os R$ 170 mil, recebeu duas parcelas do Detran, no valor de R$ 800 mil. Ele contou que, com esse dinheiro, começou a pagar propina ao parlamentar.

Pelo teor do depoimento, o empresário José Miguel teria ficado ciente de que para receber dinheiro do governo do Estado, teria que pagar propina a Valter Araújo. Pelo depoimento, fica caracterizado que Valter Araújo tinha poder dentro do governo Confúcio. Por conta do depoimento, alguns deputados já falam em abrir uma CPI para apurar supostos indícios de que o próprio governador sabia dos crimes que eram praticados nas secretarias estaduais.

O trecho do depoimento de José Miguel inserido no depoimento do deputado Edson Martins é o seguinte:

Processo Judicial n.º 13424-43.2011.8.22.0000, fls. 93/94 “...QUE VALTER disse que o reinquirido tinha que passar, a partir daquele momento, para o Deputado, a quantia de R$ 170.000,00 (cento e setenta mil reais), para cumprir uns compromissos; [...] QUE VALTER falou que tudo teria que ser tratado diretamente com RAFAEL, deixando claro que não era para levar dinheiro diretamente para ele e não tratasse mais deste assunto diretamente com ele; [...] QUE VALTER, em troca do valor recebido, prometeu influir nos pagamentos que estavam pendentes da empresa do reinquirido, bem como afirmou que os próximos pagamentos seriam realizados em dia; QUE VALTER também prometeu que o reinquirido não perderia os contratos com o governo; QUE VALTER usou a expressão ‘é assim que a banda toca, ou você entra ou você está fora’; QUE VALTER deu a entender que o Governador tinha concordado em deixar os contratos de prestação com VALTER; QUE, por várias vezes, VALTER falou para reinquirido que quem mandava no governo era o próprio DEPUTADO VALTER; QUE, no começo de mês de junho encaminhou R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais) para VALTER através de RAFAEL; QUE, pelo que se recorda, retirou o dinheiro de um pagamento de R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais) que recebera do DETRAN; QUE a retirada do dinheiro foi feita na agência do Banco do Brasil da Avenida Calama; QUE, no mesmo dia, RAFAEL procurou o reinquirido dizendo que VALTER havia dito que os R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais) não eram suficientes, que o reinquirido mandava tudo R$ 170.000,00 (cento e setenta mil reais), ou não mandava nada e VALTER tomaria as providências; [...] QUE no dia seguinte após ter rebido o recado de RAFAEL, sacou os R$ 20.000,00 (vinte mil reais) que faltava, e entregou para RAFAEL encaminhar para VALTER; [...] QUE do dinheiro recebido da SESAU no mês de junho, passou para VALTER o valor de R$ 170.000,00 (cento e setenta mil reais); QUE esclarece que enrrolava um pouco para pagar VALTER; QUE entregou os R$ 170.000,00 (cento e setenta mil reais) para RAFAEL e que, pelo que se recorda, entregou o dinheiro para ele no Banco do Brasil na agência Calama; QUE, no mês de julho, realizou o pagamento em 2 (duas) parcelas; QUE uma no valor de R$ 70.000,00 (setenta mil reais) e a outra de R$ 100.000,00 (cem mil reais);