Chico Buarque e o Camaro amarelo

O leitor sabe que há músicas que são verdadeiros achados poéticos. Carregam, em ritmo de poesia, informações culturais relevantes.

Publicada em 23 de May de 2013 às 11:41:00

Claro que tenho preferência musical definida. Minha condição de músico (amador), no entanto, recomenda-me prudência no momento de valorar esse ou aquele trabalho artístico. Parece-me óbvio também que uma obra musical receba maior ou menor aplauso, a depender de seu conteúdo e do público a que se destina. São os valores que mensuram o sucesso da obra.

O leitor sabe que há músicas que são verdadeiros achados poéticos. Carregam, em ritmo de poesia, informações culturais relevantes. Existem outras composições, porém, que não exigem maiores reflexões.

Por algum motivo, vem-me à mente Chico Buarque de Holanda. É o exemplo de compositor que tem o cuidado de elaborar letras inteligentes. Ele sempre transita em abundância nas aulas de literatura. Observe, caro leitor, alguns versos de “Choro bandido”. Só este fragmento daria uma tese de mestrado:

“Mesmo porque as notas eram surdas/ quando um deus sonso e ladrão/

fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons/

e daí nasceram as baladas...”.

Nesses versos, Chico narra a criação da música. Perceba o leitor que “as notas eram surdas”. Elas existiam, mas não produziam vibrações perceptíveis aos ouvidos.

Por causa disso, houve a necessidade da intervenção de um “deus sonso e ladrão” (deus está grafado em minúsculo). Quem é esse deus? Não há dúvida: Hermes.

Por que sonso? Hermes, mensageiro dos deuses olimpianos (o que Exu é, no mito Ioruba, para o Candomblé e o Arcanjo Gabriel é para o cristianismo), era alcoviteiro de Zeus em suas investidas amorosas. Numa dessas aventuras, Zeus se transformou em Anfitrião, e Hermes, no escravo Sósia. Sonsamente, Hermes se passou por Sósia, guardando a entrada da casa, enquanto Zeus copulava com a futura mãe de Hércules, Alcmena.

Por que ladrão? Ao nascer, Hermes furtou o gado de Apolo, tornando-se deus dos ladrões (ele também é o deus dos comerciantes). A referência ao deus ladrão é, indiscutivelmente, uma menção a Hermes.

E o que o “deus sonso e ladrão” fez? Criou a lira. Segundo a mitologia, Hermes utilizou casco de tartaruga e tripas de carneiro para fazer o instrumento musical, o qual, depois, foi entregue a Apolo e, posteriormente, a Orfeu.

Com a criação da lira, surgiu a música e, como consequência, as baladas que temos hoje.

Verifique, caro leitor, a riqueza cultural existente nesse minúsculo trecho da canção de Chico Buarque de Holanda.

Por sua vez, vem-me à mente também  - não sei o porquê - a música “Camaro amarelo”. Ela é construída em harmonia simples e letra prosaica. Resumindo, ela narra a história de um rapaz que andava a pé e, por isso, nenhuma mulher lhe dava atenção. Depois, ele comprou um carro (Camaro) e ficou irresistível. Da música, extraem-se duas conclusões inarredáveis: uma, as mulheres são interesseiras; duas, ele é desinteressante mesmo, pois precisou de um carro para se tornar atraente para o público feminino.

Como se percebe, as duas músicas são incomparáveis. Também não é lícito afirmar que uma é melhor que a outra. Valores estão em jogo. As pessoas valoram as coisas de acordo com seu mundo, seu universo cultural, seu ambiente. Uns preferem Chico; outros, o Camaro. Simples assim.

O que tem faltado às pessoas é leitura, só isso...

Theodorico Gomes Portela Neto é procurador da Fazenda Nacional, Professor e Músico. Escreve semanalmente.