De Sapé para a Madeira-Mamoré: Breve narrativa da vida de um pioneiro anônimo que se foi

Ferroviário da MM de tantas glórias, de tantos torcedores, de tantas histórias e tradições. Também no seu humilde, porém insalubre trabalho de foguista, sempre foi respeitado por todos.

Publicada em 17/07/2012 às 18:37:00

 Em 19 de junho de 2012, cumpriu seu último ciclo na “estrada” da vida, o ex-soldado da borracha e ferroviário aposentado (EFMM), João Francisco Gonçalves.

Um dos vinte filhos de Francisco Gonçalves da Fonseca e de Antônia Maria da Conceição, nasceu em 21.10.1925 em Sapé-Paraíba, tendo se criado em Mamanguape, região de Rio Tinto, no brejo paraibano.

Por falta de perspectiva de trabalho em sua região, apesar da mesa farta em sua família, resolveu, juntamente com mais dois irmãos, se inscreverem no programa do governo para fazer parte dos chamados Soldados da Borracha que vieram para os seringais da Amazônia, se incorporando no contingente que por aqui aportou em 1945.

De Porto Velho seguiram pela Madeira-Mamoré para Guajará-Mirim, tendo logo impondo a condição, com seu jeito afobado de nordestino, de ficarem os três irmãos juntos numa mesma “colocação”.

Aceita a exigência, foram mandados para os seringais dos afluentes do alto Rio Guaporé: Rio Negro e Pakaás-Novos. Trabalhou por quatro anos no corte da seringa, quando o ciclo do látex extraído dos seringais da Amazônia começou a declinar por conta do fim da Guerra Mundial e pelo início da produção pelos países asiáticos da borracha com um menor custo.

No seringal perdeu o irmão mais novo, vítima da “beribéri”.  “Baixou”, como se dizia na época, para Guajará-Mirim, onde trabalhou como estivador, “descendo” mais um pouco pela Madeira Mamoré (MM) até Porto Velho, onde também trabalhou como estivador e carroceiro.

Somente a partir de 1953 consegue um emprego na EFMM, tendo trabalhado mais de 35 anos no guincho de embarque/desembarque de mercadorias dos trens da MM e dos navios da ENASA (Empresa de Navegação da Amazônia S/A.), que funcionava no local  denominado como Plano Inclinado, em frente onde hoje está o Museu da MM.

Nos primeiro anos em Porto Velho perde o segundo irmão, já em Guajará-Mirim, também vítima da insalubridade e das consequências da má alimentação nos seringais (tudo conservado no sal: charque e peixes), uma da causas da “beribéri”, que tantas vidas ceifou nas “colocações” das “estradas” perdidas nos confins dos seringais do então Território Federal do Guaporé.

Aposentou-se já sob o vínculo do DNER-MT, que havia incorporado a extinta EFMM, sendo imediatamente contratado pelo Quinto Batalhão de Engenharia e Construção, onde serviu por mais de 10 anos, primeiro nas oficinas da MM ocupadas por maquinários da construção da rodovia para Guajará-Mirim, depois como caldeireiro na produção de asfalto para o asfaltamento da BR-364, região dos Caritianas (Porto Velho-Itapuã do Oeste).       

  Homem simples, honesto, trabalhador, terceiro ano primário incompleto, católico cumpridor de suas obrigações e deveres, sempre agradecido a Deus, não descuidando de suas orações nem quando já estava em seus últimos momentos em seu leito de morte.  Casou-se com Laura da Cruz Gonçalves, viúva, falecida em 1996, de quem adotou dois filhos menores (um já falecido), e com quem teve dois filhos.

Deixou netos e bisnetos de quem sempre recebeu o carinho, respeito e reconhecimento, pelo exemplo, pela bondade e afeto com que sempre tratou a todos.  Sua esposa deixou uma lacuna que nunca mais foi preenchida, mas nunca saiu de sua gratidão, pois foi sua companhia presente na criação e formação dos filhos, nas lutas e dificuldades enfrentadas nos seringais e em Porto Velho.

Pai responsável, carinhoso, porém exigente quando necessário, sempre se orgulhava pela educação e formação que pode dar a seus filhos, mesmo sendo um simples ferroviário, ganhando pouco, pouca instrução, mas se sacrificando para não ver lhes faltar o mínimo indispensável: a alimentação e o vestuário; e mais importante: a instrução, de que não pudera dispor. 

Partidário político do Dr. Renato Medeiros (Pele-Curta), participava das reuniões, comícios e passeatas da vida política agitada, naquela época, de Porto Velho.

Respeitado e estimado mesmo por aqueles de outras correntes políticas, porém nunca perdendo a oportunidade de dizer “umas verdades a algum aluizista (Cutuba) puxa-saco disfarçado que viesse com algum desaforo”. Vale registrar ainda sua grande alegria pelos clubes pelos quais torcia: Botafogo e Ferroviário.

Ferroviário da MM de tantas glórias, de tantos torcedores, de tantas histórias e tradições.  Também no seu humilde, porém insalubre trabalho de foguista, sempre foi respeitado por todos: colegas de trabalho, chefes imediatos, diretores. Foi funcionário por mais de 40 anos, nunca tendo faltado um dia de trabalho por todo esse tempo, tendo recebido, por ocasião de sua aposentadoria, diretamente do Diretor-Geral do DNER, Diploma de Reconhecimento pelos 35 anos de bons serviços prestados àquele Órgão.   

   João Francisco Gonçalves, de tantas lutas, de tantos exemplos, foi mais um que deu conta de sua “estrada” anonimamente. Descanse em Paz.  Por Cristiano Francisco Gonçalves - ex-servidor aposentado do Quadro de Pessoal da Justiça Federal de 1ª Instância – Seção Judiciária do Estado de Rondônia.(Filho do senhor João Francisco Gonçalves)   

ASCOM/JFRO