Em temporada de consulta para reitor, reitora, indagamos: UNIR, a quem será que se destina?

Profa Josélia Gomes Neves

Publicada em 10/02/2012 às 01:04:00

Em tempos de escolha para dirigente da Universidade Federal de Rondônia avalio ser oportuno refletir a respeito dos estudantes: quem são e quais são as suas demandas? O que cada candidato ou candidata sabe a respeito de quem consegue ingressar na Unir e de que forma permanecem até a conclusão de seus cursos? E aqueles que não conseguem ter acesso a UNIR, sabemos quem são ou que grupo os representa?

Evidências do cotidiano informam que há cursos e cursos na UNIR. Pesquisas mais aprofundadas como a “Unir mostra tua cara: perfil dos discentes de graduação”, desenvolvida pela PROCEA a partir do Programa Conexões de Saberes em meados de 2008, aponta para a importância de se conhecer este importante segmento até para uma melhor fundamentação de ações na gestão.

Na oportunidade, a pesquisa pretendeu apresentar elementos para um melhor conhecimento acerca do perfil sócio-econômico dos estudantes dos cursos de graduação da UNIR tendo em vista possíveis construções de políticas de acesso e permanência na Universidade.

Em 2008 havia 6011 estudantes matriculados (DIRCA), distribuídos nos 37 cursos de graduação. De maneira geral, a sistematização parcial realizada por docentes e estudantes do Campus de Cacoal informam que dentre outros aspectos: 59% das pessoas que estudavam na UNIR nesta época eram do sexo feminino e 41% do sexo masculino. Etnia: 64% se declaram de cor branca, 21% de negros, 7% não respondeu quanto a etnia, 5% são de cor amarela e 3% são indígena. Escola que cursou o ensino médio: 70% dos estudantes cursaram o ensino médio em escola particular; 16% integralmente em escola particular, 8% maior parte em escola pública e 6% integralmente na escola pública. Escolaridade dos pais dos estudantes da UNIR: 36,2% das mulheres estão cursando ou já cursaram a universidade, enquanto apenas 28,3% dos homens estão cursando ou cursaram a universidade; 6,3% dos pais são analfabetos e apenas 4,2% das mães são analfabetas. Renda familiar: 10% dos acadêmicos (1 salário mínimo), 9% perfazem acima de 10 salários mínimos; 43% perfazem de 2 a 3 salários mínimos, dentre outros aspectos.

Assim do ponto de vista das categorias: gênero, raça, etnia, acesso a computador, local de escolaridade básica, práticas de leituras, compras de livros, escolaridade máxima dos pais e mães e renda familiar – outras mais foram levantadas, observa-se que há diferenças muito grandes no que se refere à questão sócio-econômica que precisam ser visibilizadas e problematizadas.

Há cursos masculinos, brancos, com acesso quase pleno a computadores. Estes estudantes são oriundos em sua maioria da escola privada, quase a metade consegue comprar mais de 3 livros por semestre e dão conta de ler mais de 5 livros ao ano. Seus pais e mães concluíram o ensino superior, um terço apresenta renda familiar de 7 a 10 salários mínimos e outra parte acima de 10 salários mínimos, por exemplo.

Por outro lado, há cursos femininos, compostos por estudantes que se declaram pardos e negros, com acesso limitado a computadores, que estudaram integralmente na escola pública; lêem de 1 a 3 livros por ano; cerca de um terço consegue comprar apenas 1 livro no semestre; seus pais e mães só estudaram até o primário e incompleto (atual anos iniciais do ensino fundamental, 10 ao 5º ano); a renda familiar gira em torno de 2 a 3 salários mínimos.

Constata-se mais uma vez a distancia referente ao perfil sócio-econômico de estudantes das licenciaturas e os estudantes do bacharelados, sobretudo as áreas consideradas clássicas centradas nos cursos de Direito e Medicina.

O que foi mais interessante neste levantamento é de como um dado está imbricado ao outro, uma forma interessante de corroboração: há cursos masculinos/brancos/acesso a computadores/oriundos da escola privada/lê e compra mais livros/alta escolaridade dos pais e mães e maior poder aquisitivo. No outro lado, os dados também se relacionam, confirmando a análise: cursos femininos/pardos e negros/acesso limitado a computadores/ estudaram integralmente na escola pública/lêem mais livros do que compram/baixa escolaridade de pais e mães/renda familiar de 2 a 3 salários mínimos.

Avalio que é tarefa do gestor ou gestora da Universidade ter conhecimento destas informações pois delas decorrem ou não ações que possibilitam rever as regras de acesso na Universidade, bem como possibilitar mecanismos que permitam aos discentes concluírem seus cursos com sucesso.

Em relação ao acesso, a Pesquisa mobiliza problematizações: porque há determinados cursos geralmente de baixa importância social cujo ingresso é em sua maioria de mulheres, outros considerados de maior visibilidade social cujo ingresso maior é de homens? Mais da metade dos estudantes se declararam brancos. Qual o significado disso? Cadê os negros, pretos e pardos? Cadê os indígenas? Mais de dois terços dos estudantes da UNIR cursaram o ensino médio em escola particular, o que isso tem a ver com a democratização da educação superior? Neste ano foi levantado que a renda familiar de 10% de discentes da UNIR correspondia a 1 salário mínimo, qual a relação desta informação com as políticas de permanência e as ações afirmativas?

No curso de direito da UNIR de Porto Velho em 2008 apenas uma estudante teve sua escolaridade básica na escola pública, seus demais colegas vinham da escola privada. O que este fato tem a ver com as regras de acesso, com o jeito de fazer o vestibular da UNIR? A UNIR é de fato uma instituição pública? Pública para quem? Com a palavra os senhores e as senhoras que desejam dirigir a Universidade Federal de Rondônia.

Profa Josélia Gomes Neves
Doutora em Educação Escolar
UNIR - Campus de Ji-Paraná
Departamento de Ciências Humanas e Sociais - DCHS
Líder do Grupo de Pesquisa em Educação na Amazônia - GPEA
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