02/06/2012 - 20h03min - Atualizado em 02/06/2012 - 20h03min
Dr. Aparício Carvalho de Moraes *
Quem vive em Rondônia há tanto tempo como eu, sabe o quanto tem sido danoso o problema das queimadas. O primeiro impacto visível é nos aeroportos, estradas, rios e lagos, dificultando os voos, o tráfego e as navegações, com os aviões, veículos e barcos precisando rasgar a pesada cerração causada pela mistura de umidade e fumaça, o que coloca em risco a segurança da viagem.
Chegamos agora, à época do campo preparar o terreno para o plantio dos produtos que fazem a pujança da nossa agricultura, e muito deles ainda estão com aquela mentalidade de que “se não posso queimar a capoeira pra fazer o meu roçado, quem vem me ajudar a fazer isso?”
Estamos, portanto, diante de mais um desafio: o de prevenir e combater as queimadas que tanto tem atingido as propriedades rurais da região. Lavouras inteiras já foram consumidas pelo fogo e o principal causador, na maioria dos casos, é o próprio homem do campo.
A prática do fogo, embora permitida por lei para a limpeza do solo e outras finalidades, deve ser evitada ao máximo por produtores rurais em suas propriedades para não causar danos à terra, ao ar, ao ecossistema e a população e, é claro, deve ser substituída por técnicas mais eficientes e benéficas à produção.
Não posso deixar de mencionar, nessa breve abordagem do assunto, o esforço meritório que as autoridades ambientais do estado estão empreendendo nos últimos anos. Para enfrentar esse desafio, a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) tem realizado reuniões com os órgãos que fazem parte do Comitê Estadual de Combate às Queimadas e Incêndios Florestais, traçando um plano de ação de combate às queimadas com base na informação, na conscientização e na mobilização da população para evitar e minimizar as queimadas.
O Comitê é formado por 31 órgãos e entidade governamentais e não-governamentais: Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, SEDAM, Batalhão Ambiental, Delegacia Especializada de Crimes Contra o Meio Ambiente, SIPAM, IBAMA, DER, Delegacia Fluvial de Porto Velho, Base Aérea, INCRA, SEAGRI, IDARON, Promotoria de Justiça do Meio Ambiente, EMATER, Eletronorte, Embrapa, AROM, CAERD, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Grupo de Trabalho Amazônico, Federação dos Agricultores e Produtores de Rondônia, CPPT/Cuniã, Organização dos Seringueiros de Rondônia, Coordenação da União das Nações e Povos Indígenas de Rondônia, Centro Regional de Vigilância, UNIR, FUNAI, Articulação Central das Associações de Ajuda Mútua, Delegacia Federal de Agricultura e CEPLAC.
Também a Secretaria Municipal de Meio Ambiente lançou a campanha: “Queimadas urbanas, apague essa ideia”, que já se desenvolve desde abril nas áreas da capital onde, historicamente, existem grande concentração de focos de queimadas urbanas.
Entendo, apoio e aprovo o combate às queimadas. Elas não podem mesmo continuar. Já estava passando da hora dos governos municipal, estadual e federal se unirem nesse trabalho. Aquele negócio de cada um dar uma justificativa diferente e nenhum conseguir uma ação efetiva não podia mais continuar. Afinal a queimada é crime e a multa varia de R$ 2.482,00 até quatro milhões de reais.
Os órgãos competentes, portanto, estão se mobilizando para enfrentar o problema. Agora o que falta mesmo é o homem, do campo e da cidade, se conscientizar sobre as consequências danosas das queimadas e se preparar melhor para lidar com focos de incêndio. Para isso, o fundamental é a conscientização sobre os danos das queimadas e a informação sobre a existência de técnicas que não impliquem na utilização do fogo.
No campo os exemplos são diversos. Vão desde a recuperação da pastagem na seca, até o plantio direto na palha. E tecnologias não faltam para melhorar a renda do produtor rural e manter a qualidade do solo.
Nas áreas urbanas, as queimadas são um problema crônico em praticamente todo o Brasil. Em Porto Velho elas já tinham se tornado endêmicas, representando importante fonte antrópica da poluição atmosférica e do solo. Basta dizer que aqui, a média de queimadas no início do período de estiagem de 2011 era de 2881 focos. Com a campanha deflagrada pela SEMAS esse número foi reduzido para 1448 focos. Houve, portanto, uma redução significativa! Esperamos que, este ano, com a repetição da campanha que vai até o mês de setembro, a redução repita o sucesso do ano passado. Mas é preciso lembrar que na cidade, as queimadas são executadas em número absurdo nas quatro estações do ano. Em Porto Velho queima-se de tudo, em todos os quadrantes da cidade, (inclusive na área central). E os responsáveis por esses focos de queimadas são pessoas de todos os extratos sócio-econômico-culturais, em propriedades públicas ou privadas (terrenos, quintais, hortas, chácaras, fazendas urbanas, áreas abandonadas, pátios/garagens, caçambas, tambores, churrasqueiras, praças, ruas, calçadas, sarjetas, bueiros, canteiros centrais e acostamentos de vias públicas, encostas, pastos, margens de córregos, lixões e lixinhos clandestinos, ferros-velhos, recicladores, sucatões etc). O que implica na necessidade de um trabalho contínuo de conscientização, que não se restrinja só entre os meses de abril e setembro.
O impacto ambiental das queimadas é um tema preocupante, e a sociedade como um todo deve ser solidária na hora de indicar soluções para o problema. No campo, as queimadas comprometem a fertilidade dos solos, promovem a destruição da biodiversidade, a fragilização de agroecossistemas, a destruição de linhas de transmissão e outras formas de patrimônio público e privado. Na cidade, o impacto maior é na saúde da população. A fumaça das queimadas urbanas é uma monstruosidade química ameaçadora e aterradora para a saúde pública que deve ser banida do nosso convívio. Diante disso, concluo que a proibição de queimar não deve ser apenas uma questão de leis e lógica. Deve converter-se, também, em um dogma: “Não pode queimar porque não pode queimar e pronto”! Aceito isso, que cada um busque as alternativas adequadas, lícitas e responsáveis de dispor de seus rejeitos, lixos, capim, e etc.
* Dr. Aparício Carvalho de Moraes é médico psiquiatra, mestre em ciências da saúde, especialista em clínica médica, educação em saúde pública, vigilância sanitária e epidemiologia, administração de serviços de saúde pública, administração hospitalar e medicina do trabalho. Como médico já ocupou diversos cargos de direção em instituições públicas e privadas de Rondônia, com destaque para o de Presidente da Associação Médica de Rondônia, Presidente-Fundador da UNIMED de Rondônia, Chefe do Setor de Psiquiatria do Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, Presidente da Sociedade de Perícias Médicas do Estado de Rondônia, Secretário de Estado da Saúde e Presidente do Núcleo de Psiquiatria do Estado de Rondônia. Ex-vereador do Município de Porto Velho, ex-deputado federal e ex-vice-governador de Rondônia, também é jornalista profissional e escritor, com várias obras publicadas. Pioneiro na instalação do ensino superior privado em Rondônia, atualmente é o diretor geral da FIMCA, Faculdades Integradas Aparício Carvalho.
COMENTÁRIOS
Postado por PEDRO em 04/06/12 às 08:06
Deveria continuar atuando como médico, pois nas queimadas falou um monte, não disse nada e não entende do assunto. Área urbana e rural são completamente diferentes. No meio rural, desde os primórdios do homem o fogo é usado como manejo e assim deveria permanecer. Agora os ambientalistas inteligentes como este, resolveram proibir as queimadas. Como resultado, haja veneno nos pastos!!! Aí pergunto: o que é pior queimada ou veneno? Respondo: veneno!!!! E não me venham com esta de que os dois são ruins e deveriam ser proibidos. Só aceito este argumento de marciano, que não come carne, não bebe leite e não come verduras e legumes.
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