28/06/2012 - 07h29min - Atualizado em 28/06/2012 - 07h29min
As peculiaridades da língua Tupi levam alguns pseudotradutores (tradutorana’s) a cometerem as maiores lambanças, como no caso da tradução do topônimo de Guajará-Mirim...
O conhecimento da língua Tupi-Guarani definhou ao sabor dos interesses políticos e econômicos desde os tempos em que as leis chamadas pombalinas baniram do Brasil a Língua Geral, dialeto que mesclava Tupi-Guarani, Português e Galego, que foi usado pelos habitantes da América Portuguesa ao longo de quase três séculos. Banido o dialeto, o Tupi-Guarani foi desaparecendo paulatinamente do cenário, sendo que a verdadeira intenção dos colonizadores era vê-lo de fato extinto, tal como aconteceu com a língua dos Maias e Aztecas nas Américas do Norte e Central. No entanto, a língua Tupi principalmente, no que tange ao Brasil, apenas diversificou-se por centenas de etnias, reinventou-se ao sabor das migrações forçadas e conseguiu sobreviver mesclada a outros tantos dialetos indígenas e ao português do Brasil, de onde não foi possível extirpá-la por razões de ordem histórica.
Acontece que Portugal, reino de território escasso incrustado na Península Ibérica, falava língua neolatina de vocabulário adaptado às necessidades do espaço físico que ocupava. Ao ocupar as terras do Brasil, o colonizador português foi compelido a adotar a nomenclatura Tupi-Guarani para a definição de fauna e flora, já que bem poucas plantas e animais do novo território eram conhecidos por eles, com exceção de algumas aves de arribação que podem ser encontradas em quase todo o planeta. Foi por tal processo imperioso que o Tupi-Guarani fundiu-se à língua portuguesa e a ela mesclou-se de tal forma que nem mesmo a autoritária lei pombalina conseguiu bani-lo. Tal fenômeno prova que, conquanto as línguas sejam instrumentos de dominação de povos militarmente mais fracos, é impossível extingui-las pelo simples instrumento de legislação. Foi exatamente isto que aconteceu no Brasil. O Tupi-Guarani subsistiu no português brasileiro a despeito de tudo.
Na verdade, a primazia de coleta e apropriação da língua Tupi, no Brasil, não foi obra de nenhum lusitano. Foi o francês Jean de Léry o primeiro europeu a publicar um documento escrito em Tupi, em 1576, conquanto sua pesquisa de campo tenha sido realizada na costa atlântica do Rio de Janeiro ainda em 1557. No entanto, por essa época a Língua Geral já era praticada no novo território, de forma ágrafa, fato que fazia pouca diferença para um universo onde predominavam os analfabetos.
Embora sendo uma língua primitiva e ágrafa, com raízes fincadas no Neolítico, o Tupi tem na sua estrutura rudimentar traços, ainda que raros, de línguas clássicas. Não declinava como o Latim, o Grego, o Russo e outros idiomas e dialetos da Europa (isto mesmo, a Europa ainda tem dialetos até hoje), nem se flexionava como o nosso Português, mas produziu o sofisticado sufixo rana (mussurana, ingarana, abiorana, sussuarana, buritirana, pacarana, jatuarana, imburana etc.) cujo sentido significa falso, semelhante, parecido etc., semanticamente igual ao prefixo grego pseudo que exerce a mesma função nas línguas para onde foi transplantado. Por ser uma língua aglutinante, algumas vezes o sufixo tupi pode aparecer no meio de uma palavra, como é o caso de jekytiranaboia, cujo sentido significa falsa cobra-cigarra.
As peculiaridades da língua Tupi levam alguns pseudotradutores (tradutorana’s) a cometerem as maiores lambanças, como no caso da tradução do topônimo de Guajará-Mirim para “cachoeira pequena”, sendo que na língua Tupi o étimo guajará é designativo de algumas árvores endêmicas de várzeas, havendo a variedade de guajaraí ou guajaramirim , não sendo compreensível por quê foram criar uma pseudotradução para uma expressão Tupi etimologicamente tão bem definida. Ora, se cachoeira em Tupi-Guarani é poré e mirim é consagrado e indiscutível advérbio-adjetivo da língua, cachoeira pequena só pode ser poré-mirim, mas nunca Guajará-Mirim. Tal desvairada tradução, conquanto historicamente consagrada, pode ser creditada como mais uma lenda urbana, obra de algum gaiato, sabiorana, que se aproveitou do apedeutismo de outros tempos. Não temos mais razões para continuar laborando no equívoco antigo...
Como se já não nos bastassem os nossos próprios sabioranas tupiniquins, lá de além-fronteira nos vem um historiador boliviano, de nome Juan Carlos Crespo Avaroma, metendo a sua cuchara nada brilhante na polêmica tradução, com esta pérola de sandice: “La palavra Guajará-Mirim, no es portuguesa, ni española, tampoco es guarani, ni tupi, es originária de las lenguas amazónicas y su creación se la debemos a los toromanas, portugueses, caripunas, tacanas, araonas, chapacuras tupi, mojeños, guarani, en honor y respecto a todas ellas.” (Sic!)
Sem entrar no mérito das credenciais do historiador castelhano, como compreendo perfeitamente o espanhol, sinceramente não entendi nada do que ele pretendeu de fato dizer, já que diz e desdiz ao mesmo tempo, negando uma coisa óbvia (a origem tupi da palavra composta). Ao que me parece, o acreditado historiador nunca passou nem perto de um livro de estudo da língua Tupi-Guarani, fato que o faz um estranho na discussão de um assunto de tão alto nível. Sua intervenção algo boçal não influiu nem contribuiu em nada, muito pelo contrário, ele perdeu uma oportunidade de ouro de permanecer em silêncio...
Os séculos de uso da Língua Geral deixaram marcas na língua portuguesa do Brasil em vocábulos híbridos como canarana (cana –português-- ± rana –tupi--) e outros, sendo inclusive usado em um famoso título de livro de Guimarães Rosa, Sagarana (saga –português-- ± rana –tupi--), cujo sentido significa “semelhante ou parecido a uma saga”, composição muito inteligente do poliglota Guimarães Rosa, transplantada para Rondônia pelo Bispo D. Roberto, de origem mineira como Guimarães, estando presente na nossa toponímia na aldeia indígena de Sagarana, na foz do Guaporé, no distrito de Surpresa. Portanto, conquanto não tenha sido elencada pelos pesquisadores do assunto, Sagarana é étimo híbrido, composto por palavra portuguesa com o sufixo Tupi rana, muito presente em outros tantos étimos da língua portuguesa do Brasil.
COMENTÁRIOS
Postado por ADRIANO em 24/09/2012 às 21:24
Nobres senhores, Gostaria de contar vom vosso auxílio em identificar a palavra ou palvras que integram o tronco Tupi cujo significado remeta ao (aos) sentido (s) da palavra mérito. Temo que em minhas pesquisas venha a ser vítima de pseudotradutores, risco que certamente nao corro ao recorrer a esse fórum. Ficarei muito grato se receber vosso comunicado através de meu e-mail adrianofavorito@gmail.com . obrigado
201.83.178.92Postado por MARCO ANTÔNIO em 15/08/2012 às 14:28
Perdemos a oportunidade de termos duas línguas oficiais. Realmente a decisão política prejudicou e não deixou prosperar essa lingua tão bela que tem como referência a natureza.
189.113.76.203Postado por EDSON SIMÕES em 29/07/2012 às 10:21
Meu amigo Matias Mendes, é sempre uma aula de cultura ler os seus artigos. Receba o meu fraternal abraço.
177.1.99.197Postado por RAIMUNDO REISSON em 19/07/2012 às 13:01
É muito ruim quando agente se acha o dono do conhecimento.
187.7.196.231Postado por OSNY FERREIRA em 19/07/2012 às 10:58
Não sou linguista,sou indigneista c/extensão em antropologia, FUNAI/UNB/BSB do Curso Piloto de Indigenistas. Tive aulas c/grandes prof. Darcy Ribeiro e Roque de Barros Laraia.Sobre dialetos indigenas somente tive alguns conhecimentos com os Missionários do SIL/PVH.No entanto, creio que as identificações feitas pelo SIL com refer^ncia aos índios de Rondônia estão corretos. Sobre Matias, necessito maiores conhecimentos do assunto para opinar.Considero o amigo Matias, integro e sou credor de suas afirmações, ressalto,necessitando porém maiores informes sobre o assunto. Matias, um abraço do velho indigenista...Osny Ferreira saudades de Chico Meirelles e Apoena...alem dos amigos Zé Bell e Possidõnio que se foram... Osny Ferreira osnytupi@yahoo.com.br
177.80.231.235Postado por LEME em 16/07/2012 às 23:09
Veja se estas explicações espancam as dúvidas. GUAÍRA (PR) kuá’y’rá guá: enseada, o vale + y: rio, água + rá: o que impede. Onde não se pode passar. As águas da queda da cachoeira. Hoje se pronuncia Guaíra(guayra). Grafia correta é Guayrá. GUAJARÁ-MIRIM (RO) ua-yará-miri guajará: árvore da amazônia + miri: pequeno. Rio e cidade do Estado de RO. Rio e baía de Belém do Pará.
187.69.0.249Postado por PAULO DE TARSO FILGUEIRA em 29/06/12 às 11:06
Sr. Matias Mendes, decepciona-me, sobremaneira, a sua indignação aos comentários do Sr. Nelson Almeida. O seu texto, tanto quanto o dele, estão recheados de sabedoria a respeito do assunto posto. Ambos o textos são dignos de aplausos, pois, põem em discussão um tema incomum, infelizmente. No entanto, o "fecho" dado por vossa senhoria à discussão, não condiz com o cabedal de conhecimentos e sabedoria de que és possuidor. Referir-se ao seu comentarista como "corno" está a quilômetros de distância da "biblioteca" que és, e do apreço que nutro por vossa senhoria. Por favor, reconsidere! Paulo Filgueira (seu admirador)
200.96.216.143Postado por MATIAS MENDES em 28/06/12 às 19:06
Não conheço nenhum Nelson Almeida, nem sei por que ele está intrometendo-se em tal assunto de forma desaforada, com trocadilhos infames que certamente dizem resoeito aos indivíduos de sua laia. Antes de arvorar-se em sabiorana, esse sujeito deveria pelo menos aprender a redigir um texto com o mínimo de apresentação. Não sei quais as suas intenções, mas adianto que nunca me intimidei com as fanfarronadas dos covardes que se ocultam no mundo virtual para agredir de forma gratuita. Savez, Rien du Tout, vous êtes un cocu!
200.96.216.58Postado por NELSON ALMEIDA em 28/06/2012 às 16:16
Entre o conhecimento científico (ainda que informalmente adquirido) e o pseudoconhecimento resultante do acúmulo conturbado de informações dispersas e desprovido de uma espinha dorsal que o sistematize a distância realmente é quilométrica. Em que pese o esforço do autor em opor-se a outro ainda menos feliz que ele nas considerações que adentram a lingüística, não se pode prescindir de trazer aos leitores deste site alguma contribuição para não serem induzidos a engano "travestido" - perdão pelo trocadilho - de elucidação. Na verdade, no Brasil, existem dois grandes troncos, o Macro-Jê e o Tupi. Dentro do tronco Tupi existem 10 famílias lingüísticas e no Macro-Jê, 9 famílias. Há também 20 famílias e línguas que apresentam tão poucas semelhanças que não podem ser agrupadas em troncos lingüísticos. Não existe "Língua Tupi-Guarani". Tupi-Guarani é uma FAMÍLIA LINGÜÍSTICA que integra o tronco Tupi, juntamente com as famílias Ariquém, Aueti, Juruna, Maué, Monde, Puroborá, Mundurucu, Ramarama e Tupari. No tronco Jê, há as seguintes famílias: Bororo, Crenac, Guató, Jê, Carajá, Maxacali, Ricbactsá, Ofaié e Iate. Dentre as 20 famílias não agrupadas em troncos está a Txapacura, que corresponde à região do Guaporé-Mamoré. Ou seja: a língua indígena da região de Guajará-Mirim não tem vinculação com a família Tupi-Guarani. Quanto às línguas gerais, utilizadas por indígenas de diferentes línguas e pelos colonizadores em séculos passados, convém esclarecer que foram duas: a Língua Geral Paulista, que teve sua origem na língua dos índios Tupiniquim de São Vicente e do planalto de Piratininga (no atual Estado de São Paulo), e a Língua Geral Amazônica, que se desenvolveu nos séculos XVII e XVIII no Maranhão e no Pará a partir da língua Tupinambá, falada em uma enorme extensão ao longo da costa brasileira. A Língua Geral Paulista era um pouco diferente da língua dos Tupinambá. No século XVII, já era falada pelos exploradores dos sertões, conhecidos como bandeirantes. Por intermédio deles, a Língua Geral Paulista penetrou no interior de São Paulo, em Minas Gerais, sul de Goiás, Mato Grosso e norte do Paraná. A Língua Geral Amazônica teve seu uso intensificado e generalizado de tal forma que a partir do início do século XVIII acompanhou a expansão portuguesa na Amazônia, estendendo o seu uso ao longo de todo o vale do rio Amazonas e afluentes. Subindo pelo rio Negro, a Língua Geral Amazônica alcançou tanto a Amazônia venezuelana como a colombiana. Essa língua foi aprendida por grande parte dos colonos e missionários, sendo ensinada aos índios nos aldeamentos. Desde o final do século XIX, a Língua Geral Amazônica passou a ser conhecida, também, pelo nome Nheengatu (ie’engatú, “língua boa”). O Nheengatu passou por muitas transformações, mas continua sendo falado nos dias de hoje, especialmente na região do rio Negro. Além de ser a língua materna da população ribeirinha, ela mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não índios, ou entre índios falantes de línguas diferentes. Portanto, não há sandice nenhuma nas palavras do historiador boliviano, quando afirma:” La palavra Guajará-Mirim, no es portuguesa, ni española, tampoco es guarani, ni tupi, es originária de las lenguas amazônicas”. Essa é a pura verdade. Sandice é referir-se a “Língua Tupi-Guarani” e outras invencionices. Fica então a pergunta de onde surgiu a expressão Guajará-Mirim. É evidente que trata de uma derivação sufixal, que se deu pelo acréscimo do sufixo “mirim” (pequeno) ao vocábulo Guajará. E todo processo de formação de palavra, seja por derivação ou composição, ocorre ao longo de um processo histórico, ao longo de uma linha de tempo. Logo, num país de contexto lingüístico eminentemente dinâmico e plural como o brasileiro, ilícito seria exigir que o vocábulo Guajará e o sufixo Mirim proviessem de uma mesma fonte. Basta ver que temos, por exemplo, o “futebol-mirim”, dentre outras pérolas que abrilhantam a linguagem brasileira. E por que tal sufixação? Simples: para fazer a diferenciação entre as duas corredeiras: Guajará-Mirim e Guajará-Açu. Pequena e grande, respectivamente. Tanto não tem relação o termo “Guajará” com o tronco Tupi, que no Amazonas existe o Município de Guajará, em região de índios que falam a língua Catuquina, que integra a família Catuquina-Pano, a qual é também uma família isolada, ou seja, que não integra o tronco Tupi, nem tampouco o tronco Jê. Então Guajará significa cachoeira, corredeira? Bem, na verdade se refere a uma espécie vegetal. Daí passou de denominar a localidade de sua ocorrência. Da mesma forma que existe a cachoeira do Bananal. Depois, havendo duas cachoeiras com a mesma denominação, aplicou-se a derivação sufixal, com base no tamanho da cachoeira e não da espécie vegetal. Como se houvesse Bananal-Açu e Bananal-Mirim. Só que referindo-se ao tamanho da cachoeira e não ao tamanho da banana.
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