A direita brasileira não tem um líder

“Com Bolsonaro transformado em caseiro e sem sucessor, no desespero foram buscar Milei, mas este representa o fracasso e a vigarice”, escreve Moisés Mendes

Fonte: Moisés Mendes - Publicada em 31 de julho de 2026 às 18:58

A direita brasileira não tem um líder

Se a velha piada do desembarque do marciano se repetisse hoje, esse poderia ser o roteiro. O marciano desceria no Brasil e tentaria localizar alguém de direita na Avenida Paulista num domingo à tarde.

Pediria que o brasileiro de direita o levasse ao seu líder nacional, à figura que o representa como expressão do reacionarismo e do conservadorismo, incluindo o fascismo exacerbado.

E o cidadão diria ao marciano que seu líder mora na Argentina. O líder da direita brasileira hoje é Javier Milei. Porque, desde o momento em que Bolsonaro foi condenado e virou caseiro, ninguém mais se habilitou a cumprir seu papel. Tentam, mas não conseguem.

Na velha direita, que alguns chamam de direita profissional, os líderes são Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab e Antonio Rueda. Um manda no PL, o outro no PP, o terceiro no PSD e o último no União Brasil.

Dos quatro, só um, Ciro Nogueira, tem votos. Outros líderes dos povos da direita já tiveram, mas preferiram ser CEOs dos seus partidos a lutar pela legitimação do que fazem por deliberação do eleitor.

Kassab tenta retornar à ativa e é agora figurante de Caiado como seu vice na chapa do PSD à Presidência. Terá votos indiretos. Mas os outros sem votos são apenas os grandes operadores da direita. A democracia para eles é a dedicação permanente a arranjos, barganhas e negociatas.

Nenhum deles é um líder capaz de conversar com um marciano, nem Tarcísio de Freitas, refugado pelo próprio Bolsonaro. O cidadão de direita não teria nem como levar o visitante a Flávio Bolsonaro, que não lidera a família do pai.

O marciano ficaria sabendo que por isso, por falta de líderes locais, Milei é o líder da direita brasileira e latino-americana. Mas o homem da Paulista tentaria esconder uma reportagem da Folha, com a comparação de indicadores básicos da economia entre Brasil e Argentina.

A Folha enfileira números de PIB, inflação, endividamento público, investimentos estrangeiros, emprego. O homem esconderia a reportagem porque o marciano iria perceber, mesmo olhando por cima, que o Brasil tem os melhores indicadores na comparação geral.

E faria uma observação: onde está um indicador decisivo para que se compreenda a situação argentina? Onde estão as reservas internacionais? O cidadão de direita não saberia responder, mesmo que entenda tudo de outras áreas, até de arcabouço fiscal.

A reportagem de Douglas Gravas, jornalista morador de Buenos Aires, omite que o dólar é a moeda argentina. Que a Argentina quase não tem reservas sob controle do Estado, que Trump ofereceu US$ 20 bilhões a Milei na eleição parlamentar do ano passado e que essa ajuda acalmou o povo. O argentino só se sente seguro com dólares.

As reservas deveriam ser, depois do PIB, o primeiro indicador a ser comparado pela Folha. O Brasil tem US$ 360 bilhões em reservas em moeda forte. A Argentina tem ao redor de US$ 30 bilhões – porque a maior parte da moeda estrangeira, calculada em até US$ 300 bilhões, está escondida em algum lugar pelos argentinos, pelas empresas e pelas máfias, dentro e fora do país.

O marciano ficaria sabendo, se fosse atrás de mais informações, que hoje 61% dos argentinos consideram Milei um fracasso. Que o sistema de Justiça cercou o presidente e sua irmã Karina por envolvimento com quadrilhas de criptomoedas. E que o FMI manda na Argentina.

Esse foi o líder que a extrema-direita trouxe à convenção do PL para apresentá-lo como modelo a ser seguido. Porque Flávio é frágil. Porque os outros líderes da velha direita são, na verdade, empreendedores da política das oportunidades.

O cidadão encontrado aleatoriamente na Paulista diria ao marciano: não temos líderes da direita. Caiado e Zema são tão líderes quanto Renan Santos e Cabo Daciolo. Não temos mais um craque, nem técnico da Seleção temos hoje. E confessaria: eles têm o Lula.

O marciano responderia que isso ele já sabe e perguntaria: um líder de centro, pelo menos isso vocês têm? O cidadão constrangido diria que sim, mas esse líder é o vice de Lula.

Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

A direita brasileira não tem um líder

“Com Bolsonaro transformado em caseiro e sem sucessor, no desespero foram buscar Milei, mas este representa o fracasso e a vigarice”, escreve Moisés Mendes

Moisés Mendes
Publicada em 31 de julho de 2026 às 18:58
A direita brasileira não tem um líder

Se a velha piada do desembarque do marciano se repetisse hoje, esse poderia ser o roteiro. O marciano desceria no Brasil e tentaria localizar alguém de direita na Avenida Paulista num domingo à tarde.

Pediria que o brasileiro de direita o levasse ao seu líder nacional, à figura que o representa como expressão do reacionarismo e do conservadorismo, incluindo o fascismo exacerbado.

E o cidadão diria ao marciano que seu líder mora na Argentina. O líder da direita brasileira hoje é Javier Milei. Porque, desde o momento em que Bolsonaro foi condenado e virou caseiro, ninguém mais se habilitou a cumprir seu papel. Tentam, mas não conseguem.

Na velha direita, que alguns chamam de direita profissional, os líderes são Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab e Antonio Rueda. Um manda no PL, o outro no PP, o terceiro no PSD e o último no União Brasil.

Dos quatro, só um, Ciro Nogueira, tem votos. Outros líderes dos povos da direita já tiveram, mas preferiram ser CEOs dos seus partidos a lutar pela legitimação do que fazem por deliberação do eleitor.

Kassab tenta retornar à ativa e é agora figurante de Caiado como seu vice na chapa do PSD à Presidência. Terá votos indiretos. Mas os outros sem votos são apenas os grandes operadores da direita. A democracia para eles é a dedicação permanente a arranjos, barganhas e negociatas.

Nenhum deles é um líder capaz de conversar com um marciano, nem Tarcísio de Freitas, refugado pelo próprio Bolsonaro. O cidadão de direita não teria nem como levar o visitante a Flávio Bolsonaro, que não lidera a família do pai.

O marciano ficaria sabendo que por isso, por falta de líderes locais, Milei é o líder da direita brasileira e latino-americana. Mas o homem da Paulista tentaria esconder uma reportagem da Folha, com a comparação de indicadores básicos da economia entre Brasil e Argentina.

A Folha enfileira números de PIB, inflação, endividamento público, investimentos estrangeiros, emprego. O homem esconderia a reportagem porque o marciano iria perceber, mesmo olhando por cima, que o Brasil tem os melhores indicadores na comparação geral.

E faria uma observação: onde está um indicador decisivo para que se compreenda a situação argentina? Onde estão as reservas internacionais? O cidadão de direita não saberia responder, mesmo que entenda tudo de outras áreas, até de arcabouço fiscal.

A reportagem de Douglas Gravas, jornalista morador de Buenos Aires, omite que o dólar é a moeda argentina. Que a Argentina quase não tem reservas sob controle do Estado, que Trump ofereceu US$ 20 bilhões a Milei na eleição parlamentar do ano passado e que essa ajuda acalmou o povo. O argentino só se sente seguro com dólares.

As reservas deveriam ser, depois do PIB, o primeiro indicador a ser comparado pela Folha. O Brasil tem US$ 360 bilhões em reservas em moeda forte. A Argentina tem ao redor de US$ 30 bilhões – porque a maior parte da moeda estrangeira, calculada em até US$ 300 bilhões, está escondida em algum lugar pelos argentinos, pelas empresas e pelas máfias, dentro e fora do país.

O marciano ficaria sabendo, se fosse atrás de mais informações, que hoje 61% dos argentinos consideram Milei um fracasso. Que o sistema de Justiça cercou o presidente e sua irmã Karina por envolvimento com quadrilhas de criptomoedas. E que o FMI manda na Argentina.

Esse foi o líder que a extrema-direita trouxe à convenção do PL para apresentá-lo como modelo a ser seguido. Porque Flávio é frágil. Porque os outros líderes da velha direita são, na verdade, empreendedores da política das oportunidades.

O cidadão encontrado aleatoriamente na Paulista diria ao marciano: não temos líderes da direita. Caiado e Zema são tão líderes quanto Renan Santos e Cabo Daciolo. Não temos mais um craque, nem técnico da Seleção temos hoje. E confessaria: eles têm o Lula.

O marciano responderia que isso ele já sabe e perguntaria: um líder de centro, pelo menos isso vocês têm? O cidadão constrangido diria que sim, mas esse líder é o vice de Lula.

Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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