Canetas emagrecedoras: quebra de patentes por risco à saúde pública

Popularização sem controle e acesso restrito ampliam riscos sanitários e exigem regulação rigorosa no uso das chamadas “canetas emagrecedoras”

Fonte: Paulo Henrique Arantes - Publicada em 17 de março de 2026 às 16:01

Canetas emagrecedoras: quebra de patentes por risco à saúde pública

A imprensa não se emenda quando a pauta é saúde pública. A superficialidade com que veículos tratam de um tema médico pode provocar reação popular desproporcional à sua gravidade. Desta vez, noticiou-se que as pessoas que usam Wegovy, uma das famosas “canetas emagrecedoras”, têm mais chance que as demais de sofrer acidente vascular ocular e perder a visão. Não é bem isso, ou melhor, não é nada disso.

Segundo o médico cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do Instituto Dante Pazzanese, os usuários desse medicamento não devem se alarmar. “Esse efeito é muito raro. É preciso levar em conta se a pessoa tem alguma doença pré-existente, como lesões de retina ou de córnea, se é hipertensa grave, se é diabética grave”, explica.

Os efeitos colaterais das “canetas” sobre os quais os pacientes devem ser alertados são refluxo, náuseas, vômitos, obstipação intestinal, desidratação e deficiência nutricional. O médico tem obrigação de informar o paciente sobre tais efeitos ao prescrever o medicamento, já que há casos numericamente significativos de manifestações exacerbadas dos mesmos.

O uso de canetas emagrecedoras – cujas marcas mais usadas são Ozempic, Mounjaro e Wegovy –, contudo, apresenta um problema real e grave, cujo “efeito colateral” tem a ver com a saúde pública: a banalização do uso. Assim adverte Magnoni: “A banalização é muito constante, sempre que se vende beleza, sexualidade, longevidade, encontra-se alguém apto a comprar. Os médicos estão banalizando a prescrição a título de responder aos anseios dos seus pacientes por redução de peso”.

Num contexto de busca indiscriminada pelas “canetas”, que são caras, cada vez mais indivíduos compram de contrabandistas medicação manipulada de forma inapropriada, um crime contra a saúde pública que pode ter efeitos muito mais graves que os relatados quando do consumo do remédio de fabricação regular.

Com a iminência da quebra das patentes das “canetas”, além da queda do preço, espera-se que se criem ferramentas de saúde pública relativas ao uso dos medicamentos utilizados na sua composição. “Só a partir de protocolos rígidos e cientificamente embasados, os médicos do serviço público poderão prescrever as ‘canetas’ como prescrevem antibióticos, anticoagulantes, remédios para colesterol e para diabetes. Sem a quebra das patentes, os médicos do sistema público de saúde não contarão com protocolos de indicação, prescrição e, principalmente, de acompanhamento”, afirma Daniel Magnoni.

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

Canetas emagrecedoras: quebra de patentes por risco à saúde pública

Popularização sem controle e acesso restrito ampliam riscos sanitários e exigem regulação rigorosa no uso das chamadas “canetas emagrecedoras”

Paulo Henrique Arantes
Publicada em 17 de março de 2026 às 16:01
Canetas emagrecedoras: quebra de patentes por risco à saúde pública

A imprensa não se emenda quando a pauta é saúde pública. A superficialidade com que veículos tratam de um tema médico pode provocar reação popular desproporcional à sua gravidade. Desta vez, noticiou-se que as pessoas que usam Wegovy, uma das famosas “canetas emagrecedoras”, têm mais chance que as demais de sofrer acidente vascular ocular e perder a visão. Não é bem isso, ou melhor, não é nada disso.

Segundo o médico cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do Instituto Dante Pazzanese, os usuários desse medicamento não devem se alarmar. “Esse efeito é muito raro. É preciso levar em conta se a pessoa tem alguma doença pré-existente, como lesões de retina ou de córnea, se é hipertensa grave, se é diabética grave”, explica.

Os efeitos colaterais das “canetas” sobre os quais os pacientes devem ser alertados são refluxo, náuseas, vômitos, obstipação intestinal, desidratação e deficiência nutricional. O médico tem obrigação de informar o paciente sobre tais efeitos ao prescrever o medicamento, já que há casos numericamente significativos de manifestações exacerbadas dos mesmos.

O uso de canetas emagrecedoras – cujas marcas mais usadas são Ozempic, Mounjaro e Wegovy –, contudo, apresenta um problema real e grave, cujo “efeito colateral” tem a ver com a saúde pública: a banalização do uso. Assim adverte Magnoni: “A banalização é muito constante, sempre que se vende beleza, sexualidade, longevidade, encontra-se alguém apto a comprar. Os médicos estão banalizando a prescrição a título de responder aos anseios dos seus pacientes por redução de peso”.

Num contexto de busca indiscriminada pelas “canetas”, que são caras, cada vez mais indivíduos compram de contrabandistas medicação manipulada de forma inapropriada, um crime contra a saúde pública que pode ter efeitos muito mais graves que os relatados quando do consumo do remédio de fabricação regular.

Com a iminência da quebra das patentes das “canetas”, além da queda do preço, espera-se que se criem ferramentas de saúde pública relativas ao uso dos medicamentos utilizados na sua composição. “Só a partir de protocolos rígidos e cientificamente embasados, os médicos do serviço público poderão prescrever as ‘canetas’ como prescrevem antibióticos, anticoagulantes, remédios para colesterol e para diabetes. Sem a quebra das patentes, os médicos do sistema público de saúde não contarão com protocolos de indicação, prescrição e, principalmente, de acompanhamento”, afirma Daniel Magnoni.

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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