Desejos carnais | Extra

Um amor tranquilo, à moda antiga

Fonte: Alberto Dinys - Publicada em 11 de março de 2026 às 18:06

Desejos carnais | Extra

Dona Leonice encontrava-se sentada elegantemente numa poltrona lilás. Os olhos espertos. O coração indomável. Seus lábios vermelhos revelavam uma sedução mantida, mesmo na terceira idade. Apaixonava-se constantemente e, embora fosse uma mulher bem-sucedida financeiramente, sentia falta de um amor. Um amor tranquilo, à moda antiga. Por que não? Indagava-se. Indagava os especialistas no assunto. 

— Ainda refletindo sobre o que fazer ou não fazer? — perguntou Matilde ao entrar no escritório e ver sua irmã imersa em tantos questionamentos espirituais e existenciais. 

— Ainda… 

Matilde caiu numa leve risada. Estava cheirosíssima. Comentou em um tom educado:

— Às vezes nos sentimos assim, querida. Perdidas em tantas respostas superficiais. E mesmo que haja uma disposição em seguir adiante, o desânimo é grande. Só que… 

Suspirou. Continuou:

— Ainda devemos acreditar nas belíssimas surpresas da vida. Não se esqueça de que as mulheres são abençoadas. Por que se entregar ao sofrimento precoce? Hein? Não seja tão imprudente. 

Dona Leonice olhou com um leve desdém na direção da irmã. 

— Pra você é fácil falar assim, Matilde. Não podemos negar que ao longo dos anos você foi poupada das amarguras de uma mulher que vive num relacionamento instável. Eu vi o que não queria ver. Escutei o que uma mulher jamais deve escutar. Fui santa? Claro que não. Eu errei. Todo o ser humano é repleto de falhas. É. A minha querida irmã foi poupada de um matrimônio infernal. Tô mentindo? 

— Não. 

— Então? 

— Fui poupada por precaução e isso não me impediu de sofrer. 

— Ficar viúva nem se compara em ser agredida por um marido descontrolado, alcoólatra, que… várias vezes se deitava com gays e travestis nas noites de São Paulo. Eu corria o risco de ser infectada por alguma doença venérea ou até mesmo… pelo vírus do HIV. Ele me humilhou. Ele me traiu. Me tratou como lixo. E pior, Matilde. Pior… 

Os olhos de uma mulher com suas gigantescas lutas internas ficaram marejados. Completou:

— Ele era o pai do meu filho. Meu único filho. Tão amado o meu filho! 

— Ele se revoltou por causa do pai? — perguntou a irmã. 

— Talvez… Matilde, realmente… eu nem sei se o Vicente sabe que o pai dele é…

Fechou os olhos. As lágrimas escorreram pelo seu rosto maquiado. 

— Bissexual.  

— Ele sabe — disse Matilde. — Ele me disse que já sabia desde os dezoito anos. 

Dona Matilde se espantou. 

— Desde os dezoito? 

— Sim. 

— Como, Matilde? Nós tínhamos tanta cautela. 

— Ele leu uma das cartas que seu marido guardava nos romances eróticos que colecionava. 

— Meu Deus! 

— Pois é. Ele leu aquela carta. Justamente aquela carta. 

— Aquela? 

Então, o coração de dona Matilde acelerou. 
 
— Sim. Aquela que ele assume ser bissexual e que o Vicente é adotado. Ele leu. O seu filho leu e descobriu esses dois segredos que nós três mantínhamos a sete chaves. Ele já sabia com quem estava lidando, Leonice.

Desejos carnais | Extra

Um amor tranquilo, à moda antiga

Alberto Dinys
Publicada em 11 de março de 2026 às 18:06
Desejos carnais | Extra

Dona Leonice encontrava-se sentada elegantemente numa poltrona lilás. Os olhos espertos. O coração indomável. Seus lábios vermelhos revelavam uma sedução mantida, mesmo na terceira idade. Apaixonava-se constantemente e, embora fosse uma mulher bem-sucedida financeiramente, sentia falta de um amor. Um amor tranquilo, à moda antiga. Por que não? Indagava-se. Indagava os especialistas no assunto. 

— Ainda refletindo sobre o que fazer ou não fazer? — perguntou Matilde ao entrar no escritório e ver sua irmã imersa em tantos questionamentos espirituais e existenciais. 

— Ainda… 

Matilde caiu numa leve risada. Estava cheirosíssima. Comentou em um tom educado:

— Às vezes nos sentimos assim, querida. Perdidas em tantas respostas superficiais. E mesmo que haja uma disposição em seguir adiante, o desânimo é grande. Só que… 

Suspirou. Continuou:

— Ainda devemos acreditar nas belíssimas surpresas da vida. Não se esqueça de que as mulheres são abençoadas. Por que se entregar ao sofrimento precoce? Hein? Não seja tão imprudente. 

Dona Leonice olhou com um leve desdém na direção da irmã. 

— Pra você é fácil falar assim, Matilde. Não podemos negar que ao longo dos anos você foi poupada das amarguras de uma mulher que vive num relacionamento instável. Eu vi o que não queria ver. Escutei o que uma mulher jamais deve escutar. Fui santa? Claro que não. Eu errei. Todo o ser humano é repleto de falhas. É. A minha querida irmã foi poupada de um matrimônio infernal. Tô mentindo? 

— Não. 

— Então? 

— Fui poupada por precaução e isso não me impediu de sofrer. 

— Ficar viúva nem se compara em ser agredida por um marido descontrolado, alcoólatra, que… várias vezes se deitava com gays e travestis nas noites de São Paulo. Eu corria o risco de ser infectada por alguma doença venérea ou até mesmo… pelo vírus do HIV. Ele me humilhou. Ele me traiu. Me tratou como lixo. E pior, Matilde. Pior… 

Os olhos de uma mulher com suas gigantescas lutas internas ficaram marejados. Completou:

— Ele era o pai do meu filho. Meu único filho. Tão amado o meu filho! 

— Ele se revoltou por causa do pai? — perguntou a irmã. 

— Talvez… Matilde, realmente… eu nem sei se o Vicente sabe que o pai dele é…

Fechou os olhos. As lágrimas escorreram pelo seu rosto maquiado. 

— Bissexual.  

— Ele sabe — disse Matilde. — Ele me disse que já sabia desde os dezoito anos. 

Dona Matilde se espantou. 

— Desde os dezoito? 

— Sim. 

— Como, Matilde? Nós tínhamos tanta cautela. 

— Ele leu uma das cartas que seu marido guardava nos romances eróticos que colecionava. 

— Meu Deus! 

— Pois é. Ele leu aquela carta. Justamente aquela carta. 

— Aquela? 

Então, o coração de dona Matilde acelerou. 
 
— Sim. Aquela que ele assume ser bissexual e que o Vicente é adotado. Ele leu. O seu filho leu e descobriu esses dois segredos que nós três mantínhamos a sete chaves. Ele já sabia com quem estava lidando, Leonice.

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