O FASCÍNIO DA QUEDA
Ela jamais admitiria, mas gostava de ver aquele semideus perdendo os traços de divindade
Ela o conheceu na escola. Ele veio transferido, talvez do Olimpo. Forte, bonito e inteligente. Rebelde e amado, andava pela escola como um lugar que fosse seu.
Jogava basquete, futebol, vôlei...
Tudo seria mais fácil se ele não fosse tão gentil. Mas era. E como estudavam na mesma sala, de vez em quando, ambos conversavam. Ele sempre atencioso. Mas ela sabia que não tinha como. As meninas viviam rodeando ele, beijando, abraçando. Ela não tinha chance.
Um dia, teve um trabalho de história que era em dupla. Ela sobrou, ele chegou atrasado e teve que fazer com ela. Claro, faço sim, ele disse. Ele e aquele sorrisão afetuoso. Fizeram a atividade.
Foram dias de um indo na casa do outro, conversando, convivendo. Enquanto ele se concentrava na tarefa, ela ia se revezando entre sonhar e repetir pra si mesma que nem em sonho.
Viraram amigos. Na verdade, ele virou amigo dela, ela dedicou ainda mais fervor a sua devoção. Quando terminaram a escola, ela foi fazer Direito, ele foi para um intercâmbio nos Estados Unidos. De lá, deve ter retornado aos céus. Perderam o contato.
Agora, estava ali, anos depois, no supermercado, com aquele jeito displicente e charmoso. Era ele, ela tinha certeza. O coração não disparava à toa há muito tempo. Daquele jeito, não. Tinha voltado? Como estava a vida? Não perguntou. Faltou coragem. Ficou olhando de longe até ele ir embora.
Adulto, estava ainda mais bonito, os traços de homem, o queixo mais quadrado, o corpo mais desenvolvido, a barba por fazer. Alguma sombra no olhar. Coisa de adulto ela pensou. Voltou pra casa, pros filhos e pro marido como alguém que foi abençoado. E acreditava mesmo que fora.
Da segunda vez, um lampejo, quais as chances? Será que ele estava morando ali perto? Ele a viu e veio falar com ela. Não acredito, quanto tempo! Ela marcou o dia e a hora, mudou a rotina, passou a ir mais vezes ao supermercado, sozinha. Custava nada contribuir com o acaso, dar uma ajudinha para as probabilidades.
Meses se passaram, depois anos, desses avistamentos fortuitos no supermercado, outros no shopping, na feira, num ou noutro restaurante. Ela o perseguindo com o olhar.
O tempo foi passando, a barriga dele apareceu, primeiro um pouco, disfarçável, depois não. Os braços foram deixando de ser portentos de força, a postura declinou um pouco também, o charme...
Ela cada vez mais feliz, mais leve, mais solta. Ele cada vez mais comum, mais qualquer um, mais carne e osso. Ela jamais admitiria, mas gostava de ver aquele semideus perdendo os traços de divindade.
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