O heroi da direita brasileira

"Bertold Brecht dizia que a burguesia não tem heróis. Não tem causas heróicas, que permitam ter heróis. A direita brasileira tem heróis? Seus 'heróis' foram o Collor, o FHC, agora é o Bolsonaro. À altura das causas da direita"

Emir Sader
Publicada em 21 de setembro de 2020 às 13:43

Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Bertold Brecht dizia que a burguesia não tem heróis. Não tem causas heróicas, que permitam ter heróis. A direita brasileira tem heróis? Seus “heróis” foram o Collor, o FHC, agora é o Bolsonaro. À altura das causas da direita.

Collor salvou a direita do Lula e do Brizola. FHC salvou do Lula. Bolsonaro salva do PT e do Lula. Heróis da elite contra o povo.

Por isso toleram aqueles que impedem que os que fizeram governos que afetam os interesses da elite, triunfem, não importa o que façam. Com Bolsonaro essa situação atinge seu ápice. Ao mesmo tempo que os meios de comunicação atacam duramente Bolsonaro por seus comportamentos de falta de decoro, pelo envolvimento dele e de seus parentes em casos de corrupção, não se envolvem nas possibilidades de impeachment dele. 

Porque não dispõe de outro político, que pudesse assumir os interesses econômicos da direita, que pudesse disputar com a candidatura do PT em 2020. Bolsonaro é produto do pânico da direita do retorno de um governo do PT e da liquidação das outras alternativas com que contava – os tucanos Serra, Alckmin, Aécio, FHC sem popularidade. Então, é aquela historia do “nao tem tu, vai tu mesmo.”

A direita inteira se escora atrás do Bolsonaro para se proteger do PT. Se escora na sua politica economica ultra neoliberal, mas se escora também no seu estilo politico, na sua forma agressiva de se relacionar com a mídia, com o Judiciario, com o Congresso, que lhe garante a manutencao de uma base de apoio de direita radical. 

Precisa do discurso de de agressão violenta contra os inimigos instituídos pelo Bolsonaro como os responsáveis pelos problemas do país  - a esquerda, os meios de comunicação, o Judiciário, o Congresso, os governos de outros países. Uma imagem de um presidente que tenta resgatar o país das mãos dos que teriam provocado o caos.

Como poderia ser herói quem defende os Estados Unidos contra os interesses do Brasil? Como poderia ser herói quem defende a ação das polícias e a posse e uso indiscriminado de armas contra a população? E protege os policiais de seus crimes?

Como poderia ser herói que defende os que destroem a Amazônia e o Pantanal, atacam suas populações, para obter lucros às custas deles. Como poderia ser herói quem promove descaradamente os interesses dos bancos privados, que se enriquecem mais e mais sem produzir nada e sem gerar empregos, só na base da especulação financeira?

Como poderia ser herói quem mente o tempo topo, falseia a realidade, agride, ofende, desqualifica os outros? Como poderia, quem elogia o golpe militar que destruiu a democracia e fez da tortura seu método de interrogatório? Como poderia ser herói quem entrega o governo a esses mesmos militares, compactuando com tudo o que fizeram de brutal contra o Brasil, contra seu povo, contra nossa democracia.

Não, um personagem assim nunca será herói do Brasil, do povo brasileiro. E’ seu vilão, o monstro que destrói tudo o que pode, que degrada a convivência pacifica entre todos, que incentiva a violencia, a discriminação, o machismo.

O Brasil tem heróis, sim, os que lutaram e lutam sempre ao lado do povo, por suas necessidades, pela democracia em que as maiorias podem impor sua vontade. Os que sempre estiveram contra a ditadura militar e denunciam a tortura.

“Triste o país que precisa de heróis”, dizia Beltold Brecht. Porém, mais triste ainda um país que promove falsos heróis. Este país real precisa, sim, de heróis, e os tem, os reconhece, quando manifestar sua vontade que o Lula volte a governar o Brasil, em nome de todos os oprimidos, os humilhados, o discriminados, os ofendidos.   

Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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