Problema de Flávio vai além de imagem ligada a milicianos
“O filho ungido terá que lidar com a guerra interna provocada pela fragilização e ausência do pai chefão”, escreve Moisés Mendes
Flávio Bolsonaro (Foto: Reprodução/YouTube/Pânico Jovem Pan)
Flávio Bolsonaro pode estar perdendo tempo e foco com a decisão de ingressar com ação na Justiça do Rio contra detratores. O filho ungido exige que o X-Twitter forneça cadastros de usuários que publicaram textos associando seu nome a milícias e milicianos.
É um direito de quem se sente injuriado, caluniado e difamado. Flávio quer processar os autores das acusações ou insinuações de que tem conexões com bandidos. Um levantamento completo, com a ficha de cada um dos detratores, pode resultar na identificação de milhares de pessoas.
Até os robôs da Inteligência Artificial podem ser enquadrados por disseminarem esses vínculos. Perguntei hoje ao Gemini, do Google: qual é a relação de Flávio Bolsonaro com as milícias?
A resposta, disponível nessa e em qualquer outra plataforma de IA, apresenta o que todo mundo sabe sobre as relações provadas de Flávio com figuras identificadas como milicianos.
Nenhum robô afirma que ele é miliciano. Mas todos falam de relações explícitas, públicas, manifestadas das mais variadas formas, inclusive com homenagem a miliciano. Ninguém homenageia quem não conhece e não admira. Adriano da Nóbrega mereceu a Medalha de Tiradentes da Assembleia do Rio porque era admirado por Flávio.
E há ainda acusações feitas pelo Ministério Público, que poucos sabem onde andam e se andam. O que ele pode dizer é que não há condenações na Justiça em casos que o envolvam com as milícias. Sim, não há. Nada até agora.
Nem com as milícias, nem com rachadinhas, nem com a compra de imóveis com dinheiro vivo, nem com lavagem de dinheiro em franquia de chocolate, nem com os desmandos e outros crimes denunciados durante a pandemia. Tudo isso aparece em buscas auxiliadas pela IA.
Mas são apenas suspeitas ou investigações inconclusas. Apenas isso. Não há nenhuma condenação em nenhum desses casos, que qualquer robô pode detalhar.
Todos os inquéritos e processos ficam pelo caminho, pelos mais variados motivos. Inclusive uma investigação, por seus vínculos com milícias, aberta pelo Conselho de Ética do Senado. Nada anda.
Então, Flávio pode se desligar desse tipo de preocupação, porque sua iniciativa apenas colocou de novo nas capas dos jornais o seu nome ao lado das palavras milícias e milicianos.
Fora isso, não há com o que se estressar. Todas as informações sobre desmandos dos Bolsonaros, de inquéritos, processos e do que circula nas redes sociais já não provocam impacto na família liderada pelo líder preso.
As pesquisas recentes provam que quaisquer questões relacionadas a valores, ética, referências morais e bom senso não interferem muito nas decisões dos eleitores decididos a votar em qualquer candidato competitivo que represente a velha direita e a nova extrema direita.
Importa que o candidato seja capaz de enfrentar Lula. Flávio já está assimilado e normalizado como candidato de todos os anti-Lula. Desde o tio do zap da velha Arena agro e urbana, passando por todas as facções do centrão e pelos antigos bancos e pelas novas fintechs da Faria Lima e do PCC e chegando às alas mais extremistas do bolsonarismo.
O Estadão o apresenta como moderado que busca aproximação com os gays. E em chamada de capa dessa sexta-feira sugere que escolha uma mulher para a Fazenda, para assim ficar mais feminino.
Por isso, esqueçam as milícias. Flávio deve se concentrar nos problemas internos do bolsonarismo e da própria família. E pensar no seguinte: com o quadro que se apresenta hoje, das divisões no núcleo caseiro-afetivo do bolsonarismo, se for eleito, ele não terá paz.
A maior preocupação de Flávio não é com as composições os Estados, como mostram as anotações encontradas sobre sua mesa na sede do PL em Brasília. É com as facções internas que irão desafiá-lo se for eleito.
Com Bolsonaro encarcerado, ou mesmo na clausura de uma prisão domiciliar, o bolsonarismo viverá sob rachas permanentes, além de enfrentar o aumento das chantagens eternas do centrão.
O bolsonarismo no poder terá outros desdobramentos, com o agravamento de danos nas guerras entre Flávio, Michelle, Tarcísio, Eduardo, Carluxo, Malafaia, Nikolas, Kassab, Ciro Nogueira, Valdemar Costa Neto.
Não é nem com a grande mídia que Flávio deve se preocupar, porque Globo, Folha e Estadão vão despachar direto com o Paulo Guedes dele. São a família e seu entorno o problema.
A degradação do líder é, em estruturas de poder sob controle da família, a anunciada degradação de todo o resto. É a vida e está na arte, na literatura, no cinema.
Flávio paga o preço de ser considerado o mais centrado da família e por isso foi ungido. Vai enfrentar problemões que não têm relação hoje com o vínculo da sua imagem com o mundo dos milicianos. Quase metade do Brasil já assimilou e normalizou até as milícias.
Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.
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