Sérgio Camargo é porta-voz dos preconceitos de Bolsonaro

Inquérito aberto sobre presidente da Fundação Palmares irá apurar insultos comparáveis a escandalosa palestra do próprio Bolsonaro em 2017, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Paulo Moreira Leite
Publicada em 08 de junho de 2020 às 11:51

(Foto: Reprodução)

O pedido de abertura de um inquérito para apurar se o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, cometeu crime de racismo numa reunião com assessores, conforme gravação divulgada pelo  Estado de S. Paulo,  poderia representar uma oportunidade para o país encarar uma vergonha histórica.

Diante de uma Constituição que diz, no inciso XLII do artigo 5o que "a prática de racismo constitui crime inafiançável e imprescritível", as manifestações de Sérgio Camargo constituem um flagrante à luz do dia.

Ele se referiu ao movimento negro como "escória maldita" que abriga "vagabundos"; chamou o herói negro Zumbi de Palmares de "filho da puta que escravizava pretos"; também de referiu a uma mãe de santo como "macumbeira".

Na teoria, trata-se de um caso sob medida para produzir uma episódio exemplar na luta contra o racismo. Até porque partiram do comando da única instituição do Estado brasileiro que tem como prioridade enfrentar o racismo após a extinção do Ministério de Políticas Públicas pela Igualdade Racial, criado por Lula em 2003, extinto em 2015.

Sempre inaceitáveis do ponto de vista da dignidade humana, as afirmações de Sérgio Camargo, mesmo chocantes, guardam uma linha de continuidade com manifestações do mesmo teor patenteadas por Jair Bolsonaro, dono da caneta que lhe deu o comando da Fundação Palmares. Na tristemente célebre palestra na Hebraica, em 2017, Bolsonaro desafiou a platéia com um comentário antológico:

-- Alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual essa raça que tá aí embaixo ou como uma minoria tá ruminando aqui do lado.

Em outra passagem, o então parlamentar afirmou que visitou um quilombola em Eldorado Paulista, onde “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador eles servem mais”.

Na época, os pronunciamentos foram examinados pela Justiça. Numa decisão por 3 votos a 2, de setembro de 2018 o Supremo recusou-se a abrir um inquérito por racismo -- num caso que teria impacto direto sobre a eleição presidencial, no mês seguinte. Venceu a tese de que Bolsonaro estava protegido pela imunidade parlamentar. O caso também chegou Justiça Federal, onde recebeu uma multa de R$ 50000, mas até isso caiu na segunda instância.

Num governo no qual o discurso político de toda autoridade é mantido sob vigilância implacável pelo comando ideológico do bolsonarismo, capaz de derrubar até ministros, a presença de Camargo no governo cumpre acima de tudo uma função política.

Incapaz, até hoje, de produzir qualquer medida capaz de produzir benefícios reais aos afrodescendentes, seu  palavreado  tenta  humilhar, rebaixar e ofender a população negra, num serviço que apenas retoma o velho esforço de manter uma parcela maior que a metade da população brasileira num cativeiro histórico, formado de mão de obra barata, escolas ruins e cidadania de segunda classe.

Alguma dúvida?  

Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

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