Técnicas de manejo de fogo são chave para combater incêndios no Pantanal

Devastação provocada pelo fogo tem gerado consequências para a biodiversidade, a economia e para toda a população local; criação de brigada permanente é essencial para combater os incêndios na região

Assessoria
Publicada em 21 de setembro de 2020 às 11:49
Técnicas de manejo de fogo são chave para combater incêndios no Pantanal

Os incêndios continuam a devastar grandes áreas do Pantanal, incluindo sua biodiversidade e colocando em risco espécies simbólicas do país, como a arara-azul e a onça pintada. De acordo com o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), o Pantanal teve mais de 2,9 milhões de hectares incendiados desde o começo do ano até a primeira quinzena de setembro, o equivalente a cerca de 19% da parte brasileira do bioma. Entre as maneiras encontradas pelos brigadistas para conter o avanço dos incêndios está o manejo do fogo.

De acordo com o membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), Felipe Dias, as equipes têm usado diversas técnicas para impedir um cenário ainda maior de destruição, cujas origens estão relacionadas a fatores climáticos e humanos. “Temperaturas elevadas, matéria orgânica seca, ventos fortes. Tudo isso levou à ampliação do incêndio. Mas a origem é humana. Não necessariamente uma origem criminosa, de pôr fogo propositadamente. Muitas vezes é acidental, na hora de fazer o manejo de pastagem, por exemplo”, diz o especialista, que é diretor executivo da SOS Pantanal. Ele ressalta, no entanto, que os incêndios atuais não são acidentes, pois existem resoluções federais e estaduais em vigor proibindo o uso do fogo para controlar a pastagem.

Entre as técnicas utilizadas pelas brigadas estão os aceiros negros, a queima prescrita e a queima de expansão (ou contrafogo). Os dois primeiros são feitos de maneira antecipada e preventiva, eliminando do ambiente o combustível que o fogo precisaria para se propagar. Já a queima de expansão é executada como forma de combate, no momento em que um incêndio é identificado, prevendo-se sua movimentação de acordo com a direção dos ventos e, assim, protegendo áreas não atingidas.

A queima prescrita é a eliminação controlada – no período de chuva – do material combustível (biomassa vegetal) em áreas específicas, também com o objetivo de que, na eventualidade de o fogo chegar à região, não ter com o que se alastrar.

Segundo o coordenador de Projetos Ambientais da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Emerson Antonio de Oliveira, o fogo é uma ferramenta usada em atividades agrícolas e pecuárias no Pantanal. “Trata-se de uma atividade que requer autorização, conhecimento e muito cuidado. É preciso que haja condições que permitam esse tipo de ação, como umidade e ventos propícios. Caso contrário, o bioma e toda a sua biodiversidade corre graves perigos, como estamos vendo atualmente”, diz, reforçando que este mesmo cenário relacionado ao fogo também ocorre no Cerrado e na Amazônia.

Em tese, um proprietário rural que queira usar o fogo para qualquer finalidade tem de evitar o período de estiagem e pedir autorização para os órgãos de controle ambiental, que emitem as licenças necessárias e as regras que deverão ser seguidas. O incêndio acidental acontece quando, mesmo com as devidas autorizações, o fogo foge de controle. Ele difere do incêndio criminoso no sentido de que este é resultado de uma ação que não teve autorização legal para ser realizada. Em ambos os casos, as consequências podem ser catastróficas.

Em 16 de julho, foi publicado no Diário Oficial da União um decreto do governo federal que proibiu a utilização do fogo em práticas agropastoris e florestais na Amazônia Legal e no Pantanal por 120 dias. Com isso, toda e qualquer forma de utilização de fogo para essas finalidades durante este período são consideradas ilegais.

Outro agravante tem sido as mudanças climáticas, que alteraram as estações propícias para o uso do fogo controlado. “A época que era adequada para isso já não é mais. Em 47 anos, esse é o menor nível de inundação do Pantanal que eu vejo, o que gera uma área maior de matéria seca e o risco de incêndio se agrava”, explica Dias. Ele também alerta para o fato de as chuvas estarem menos espalhadas ao longo dos meses, concentrando-se em poucos dias e criando, assim, intervalos mais longos de seca. “Temos que entender essa dinâmica. Vai se repetir no ano que vem? No outro? É uma mudança permanente? Temos que trabalhar com perspectivas de adaptação às mudanças do clima.”

Impactos socioeconômicos

A dificuldade de controlar os incêndios também gera impactos socioeconômicos no Pantanal. A começar pela atividade turística, que já estava debilitada em decorrência da pandemia e teve sua recuperação dificultada pelos efeitos do fogo. Com isso, comunidades que vivem do turismo acabam sendo prejudicadas. Povos indígenas também sofrem. “A terra indígena dos Perigara teve, se não 100%, uma grande parcela destruída”, diz Dias, que também alerta para a situação dos índios Kadiwéu.

O especialista está na região de Porto Jofre, no município de Poconé, no Mato Grosso, auxiliando os combatentes e as equipes de resgate. A região conta agora com focos de menor intensidade e a preocupação maior é com a vida silvestre. Com a devastação do fogo, muitos animais perderam suas fontes de alimento. “Estamos levando água e comida para os animais. As consequências sobre a biodiversidade ainda precisam ser medidas. Vimos macaquinho pegando galho seco para comer e outras cenas. Agora a preocupação é o pós-incêndio.”

Uma das formas sugeridas por Dias e outros especialistas para evitar os impactos de grandes incêndios é a criação de brigadas permanentes ou, até mesmo, de uma Brigada Nacional, em moldes semelhantes à Força Nacional de Segurança. O objetivo é criar estruturas perduráveis de combate a incêndios, incluindo equipamentos e veículos que permitam a ajuda de brigadas voluntárias. “Eu consigo trazer brigadistas hoje para o Pantanal, mas não temos como fazer o transporte deles na região por falta de embarcações fluviais, por exemplo.”

Nesta semana, o Instituto Homem Pantaneiro lançou uma iniciativa de arrecadação de doações para a formação da Brigada Alto Pantanal, uma brigada permanente para combater incêndios durante o ano todo nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. “A ideia é não apenas combater o fogo, mas, também, inspirar fazendeiros e outros setores da sociedade a replicar a ação”, disseram os idealizadores do projeto em comunicado.

Entre os apoiadores do projeto está a Fundação Grupo Boticário. Para Oliveira, iniciativas como esta podem ser replicadas em outros biomas, aumentando o nível de proteção dos ambientes naturais brasileiros. “A defesa do meio ambiente, ainda mais no país mais biodiverso do mundo, precisa ser criada de maneira conjunta e colaborativa”, afirma.

A expectativa é de que a campanha da Brigada Alto Pantanal arrecade recursos para a manutenção de uma brigada com duas unidades de sete pessoas cada, equipamentos de proteção individual e duas embarcações. As doações podem ser feitas pelo site https://brigadaaltopantanal.org.br/.

Sobre a Fundação Grupo Boticário

Com 30 anos de história, a Fundação Grupo Boticário é uma das principais fundações empresariais do Brasil que atuam para proteger a natureza brasileira. A instituição atua para que a conservação da biodiversidade seja priorizada nos negócios e em políticas públicas e apoia ações que aproximem diferentes atores e mecanismos em busca de soluções para os principais desafios ambientais, sociais e econômicos. Protege duas áreas de Mata Atlântica e Cerrado – os biomas mais ameaçados do Brasil –, somando 11 mil hectares, o equivalente a 70 Parques do Ibirapuera. Com mais de 1,2 milhão de seguidores nas redes sociais, busca também aproximar a natureza do cotidiano das pessoas. A Fundação é fruto da inspiração de Miguel Krigsner, fundador de O Boticário e atual presidente do Conselho de Administração do Grupo Boticário. A instituição foi criada em 1990, dois anos antes da Rio-92 ou Cúpula da Terra, evento que foi um marco para a conservação ambiental mundial.

Sobre a Rede de Especialistas

Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

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