A estratégia de Michelle
“Michelle parece seguir a linha, afasta-se de políticos com histórico de “esquerdistas”, tal Ciro, para forjar sua identidade como representante da direita (e extrema-direita) brasileira”
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, aparentemente, dispõe de uma sofisticada estratégia para as próximas eleições.
Ao rejeitar a aliança com Ciro Gomes no Ceará, desautorizando o enteado Flávio Bolsonaro, indicado pré-candidato a presidente pelo próprio chefe do clã, Jair Bolsonaro, sugere uma intenção assemelhada à do PT, nos anos 1980, de lançar o maior número de candidaturas “puro-sangue”, sem coligações com partidos fora de seu espectro ideológico, para ir consolidando a própria imagem, a despeito de não vencer as eleições imediatas.
Michelle parece seguir a linha, afasta-se de políticos com histórico de “esquerdistas”, tal Ciro, para forjar sua identidade como representante da direita (e extrema-direita) brasileira. A estratégia do PT era de longo prazo, e deu certo; Michelle apostaria na dinâmica dos tempos atuais, em que as mudanças se dão de forma mais rápida.
A ex-primeira-dama também busca se consolidar como a “verdadeira herdeira” do bolsonarismo, por meio de alto engajamento nas redes sociais. O ato mais incisivo foi o vídeo em que denunciou o senador Flávio por tê-la ofendido sem motivo, o que levou o enteado a se humilhar e pedir desculpas – e utiliza a internet para se mostrar firme e forte, a autêntica “defensora da família cristã e tradicional”, explorando os laços com as mulheres e lideranças evangélicas.
Bonita e elegante, equilibra a postura de “dona de casa”, que cuida da filha e zela pelo marido idoso e adoentado, com a de “líder política”, que mobiliza a base feminina conservadora à frente do PL Mulher. Com voz mansa, porém incisiva, não fala de economia nem de gestão pública, foca o discurso nos “valores familiares”, a tradicional pauta dos costumes, que tanto agrada aos conservadores, e busca romper a resistência do bolsonarismo radical.
Michelle, ao que parece, não acredita na vitória de Flávio, Caiado nem Zema, e estaria se preparando para ser a “Bolsonaro da ocasião” em 2030, quando estaremos na era pós-Lula e pós-Jair – a enfrentar o machismo institucional do grupo fiel ao ex-presidente, ganhar a confiança dos eleitores da direita e, também, dos fundamentalistas.
Já o campo progressista, de esquerda, segue, até agora, sem nenhuma estratégia aparente, o que é preocupante.
Advogado, jornalista e professor. Pós-graduado em Didática para o Ensino Superior e em Globalização e Cultura. Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Taquaritinga
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