Gaspar | Capítulo 1

Claro que confiava no Senhor. Claro que todos os seus anseios eram apresentados ao Rei

Fonte: Alberto Ayala Filho - Publicada em 30 de setembro de 2026 às 17:45

Gaspar | Capítulo 1

A cidade movimentada e o calor daquela tarde de terça-feira, 29 de setembro de 2026. Gaspar estava sentado no banco dos passageiros enquanto o motorista o observava discretamente pelo espelho retrovisor interno. Viver no Brasil era muito diferente da realidade francesa. Mesmo que ele fosse um homem com apreço pela humildade nas relações interpessoais, tinha alguns receios da nefasta violência que a cada dia se instaurava com veemência neste país. Queria ser mais aberto às pessoas. No entanto, escolhera a discrição como uma forma de defesa. Era mais sábio não se iludir com as utopias apregoadas pelos que não compreendiam a dura verdade que até hoje espanta os que se consideram fortes demais para não se alarmar com o horror existencial. 

Claro que confiava no Senhor. Claro que todos os seus anseios eram apresentados ao Rei. Acontece que apesar da esplêndida aura celestial que é irrefutável na vida dos verdadeiros cristãos, fechava-se em diversos momentos. Momentos que pareciam eternos. Só pareciam, mas que já causavam aquela sensação de distanciamento do calor humano exigido por alguém que precisa do público. Diante dos holofotes, geralmente, usava roupas elegantíssimas e de grifes famosas. Uma das suas táticas mais ousadas sendo hétero? Sim, de certa forma. Afinal, entendia a importância de ser lembrado como uma figura diferente. Como faria para se distinguir? Havia uma lista do que fazer, de como se comportar e do que falar. Ele era natural. Não havia fingimento. Só que também se aproveita dos artifícios de um exímio estrategista literário em um contexto em que a maioria dos escritores não faziam fortunas com suas publicações. Era estiloso e os editores sentiam-se aliviados em saber que Gaspar era um homem que sentia atração pelo sexo oposto. 

“Ora, tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério de reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra de reconciliação. Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Em nome de Cristo, pois, pedimos que vocês se reconcilie com Deus. Aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, n’Ele, fôssemos feitos justiça de Deus.” 

2 Coríntios 5:18-21

São Paulo

— Você acha que o trânsito vai melhorar, Frederico? — perguntou  Gaspar com uma sofisticação europeia. O estilo de homem que exalava a nobreza sem dizer nenhuma palavra. 

— Creio que sim, senhor — respondeu o motorista com um olhar de preocupação. As pernas inquietas e o desejo de ser muito eficaz no seu ofício. 

— É assim mesmo. O caos da cidade grande e os homens que estão ávidos pelo dinheiro — comentou o patrão em um tom reflexivo. — Uma busca pelo reconhecimento. Às vezes…

Pausa dramática de um homem calejado pelo tempo. Continuou:

— Na maioria das vezes, o reconhecimento não vem. De propósito. Não por falta da qualidade dos que executam as tarefas mais emblemáticas nesta sociedade. 

— O senhor fala de um jeito — disse Frederico com temor de parecer invasivo. — É um escritor famoso. Realmente sabe o que está dizendo, mas soa como uma oratória melancólica. Me remete à tristeza. E a tristeza engaveta os sonhos e as mais esplêndidas aspirações. 

— É verdade — concordou Gaspar ajeitando-se levemente no banco de trás do luxuoso carro. — É verdade, Frederico. Por anos fui um homem que cultivou um notável apreço pela positividade. Acontece que amadurecer significa ter que abrir mão das vãs ilusões. Encara-se a verdade rejeitada pelos que adoram se autoenganar com devaneios. 

— Compreendo que a vida não é um mar de rosas, senhor. Só que… não é melhor acreditar nas alegrias do que nas tristezas? 

Gaspar não respondeu de imediato. Processou a pergunta por alguns instantes. 

— É melhor acreditar nas alegrias da vida, Frederico! 

— Então? Com todo o respeito, eu não gosto de ver o senhor assim. 

— Assim como? 

— Se lamentando. Não é legal, patrão! Logo o senhor que é um homem que possui tanta inteligência. As pessoas gostam de ler os seus romances cristãos. Elas se inspiram nas narrativas que o senhor escreve. 

— Romances cristãos… 

Gaspar estava longe.

— Eu mesmo indico para alguns amigos que vão à igreja e todos eles se sentem tocados pela escrita do senhor. Ela aproxima muita gente de Deus. É diferente dos romances que são publicados apenas para vender. Os modismos passam, patrão. Já as palavras do Criador permanecem e nos conduzem à vida eterna. Os romances cristãos que o senhor escreve apontam para o Todo-Poderoso. É uma belíssima missão literária! Uma missão indubitável. 

— Eu sei, Frederico! 

— Fico feliz pelo senhor! 

— Mas eu estou em uma fase de grandes reflexões. Um período para me refazer como ficcionista religioso. Para enxergar as duras verdades e as mais belas oportunidades que estão ao meu redor. 

Frederico deu um sorriso amigável. Disse:

— Saiba que estarei orando pelo senhor.

— Agradeço por tal benevolência, querido. 

— Estou aqui para honrá-lo como patrão! — afirmou o motorista. 

— Eu admiro a sua lealdade — disse Gaspar. Respirou fundo. O seu perfume francês era maravilhoso. — És um servo de Deus!

Então, o trânsito começou a melhorar. Frederico comemorou com um sorriso. Foi dirigindo por uma importante avenida da cidade em direção a mansão do escritor. 

Mansão de Gaspar

As janelas da sala espaçosa encontravam-se abertas, revelando um lindíssimo jardim repleto de plantas e flores de diversas cores. O vento fresco tão delicioso! A sinfonia dos pássaros ao ritmo da natureza criada por Aquele que subsiste antes de todas as coisas. 

Sentada em um belíssimo sofá, Amélia, a irmã do escritor, toda vaidosa e já tomando um chá de camomila e se deliciando com os biscoitos de chocolate que a empregada havia preparado horas antes.

— Eu amo o Gaspar, Matilde — disse Amélia envolta por uma empolgação incomum. — Mas ele é tão distante. Tão frio às vezes. Nem parece aquele Gaspar que amava percorrer as elegantíssimas ruas de Paris. Ah! Paris e os vários cavalheiros que me achavam linda. E eu era linda. Ainda sou, claro. Só que a beleza da juventude é diferente. Sabe? A pele, os trejeitos, o olhar, as ideias. O frescor de ser cortejada e ainda sentir uma emoção de entender que o novo te espera. Ah! Tantas lembranças de um passado glorioso. As joias. Eu tinha tantas joias e já fui pintada por vários artistas plásticos italianos. 

— O senhor Gaspar já me mostrou várias fotos de vocês dois em Paris, Veneza, Itália, Estados Unidos, Espanha… 

— Espanha. ¡Me enamoré de un español tan bello y educado! Javier y su voz tan hermosa. ¡Aún lo extraño!

— Nossa, dona Amélia! A senhora é viajada mesmo, hein?! Sabe falar até espanhol. 

— Claro que eu sou viajada! Eu estudei em colégios particulares. Eu tive aulas com professores de idiomas que eram maravilhosos e lindos. 

— Nossa! Tô impactada! 

— Eu sei que sou uma diva.

— E por que a senhora ficou pobre? — perguntou a empregada inocentemente. 

De repente, toda a espontaneidade de Amélia foi embora. Até o olhar mudou. Assumiu uma postura arrogante. 

— E quem é você para ficar me fazendo perguntas tão indiscretas? Por acaso nós somos duas amiguinhas? Se coloque no seu devido lugar, Matilde. 

— Desculpa, senhora! 

— Está desculpada! 

— Não vai mais se repetir.

— Espero que não. Afinal, somos duas mulheres completamente diferentes. Eu nasci em berço de ouro. E você? 

— Eu sou de origem humilde, dona Amélia. Meu pai e a minha mãe não sabiam nem ler, nem escrever. 

— Coitados! Coitada de você, Matilde! É por isso que você não sabe se comportar direito. A vida é assim mesmo. Muitas injustiças. Muitas desigualdades e você, infelizmente, me parece que não nasceu para vencer. Nem para dar um golpe em um velho rico e doente serviu. Muita tristeza nessa sua vida predestinada ao horror! 

Os olhos de Matilde ficaram marejados. Ela sentiu na pele a dor da humilhação naquele momento.

— Não fica assim não. Enquanto há vida, Matilde, há esperança. Eu conheço alguns velhos que adorariam se envolver com uma mulher mais nova. Mesmo burrinha. Assim é que eles gostam mesmo.

— Eu não sou esse tipo de mulher que se envolve com um homem mais velho apenas pelo dinheiro. Eu acredito em Jesus. Eu tenho caráter.

— Jesus? — questionou Amélia em um tom de deboche. Deu uma risada. — Por favor! Jesus? E você acredita nas mentiras que o meu irmão, seu patrão, escreve naqueles romances tenebrosos?

— Não fale assim do senhor Gaspar, dona Amélia. Ele escreve romances abençoados por Deus.

Sentindo-se provocada, Amélia levantou-se do sofá e gritou: 

— Está discordando de mim, empregadinha miserável? 

Mesmo assustada, Matilde não abaixou a cabeça e respondeu:

— Estou, dona Amélia. E se a senhora continuar me agredindo com palavras e ousar me dar um tapa, eu chamo a polícia. Eu não tenho medo da senhora. E eu não sou tão burra assim. Eu conheço os meus direitos. Mereço ser respeitada!

Amélia riu. Ajeitou os cabelos loiros, levemente ondulados e hidratados. Disse:

— E assim a população vai se rebelando contra os que realmente são educados. A população pensa que pode, mas no fundo não passa de um bando de famintos que nunca serão nobres. Desgraçados! Desgraçados que dependem das migalhas! Roedores de migalhas. 

— A senhora se acha muito, mas depende do dinheiro do seu irmão que faz sucesso como escritor cristão. O senhor Gaspar é um homem tão generoso. Tão fiel a Deus. Ele poderia muito bem não querer ajudar a senhora. Só que ele escolheu agir diferente. Ele é humano. Como é que a senhora tem coragem de ser assim? Tão má. Tão ingrata. Detesta os romances cristãos que o senhor Gaspar escreve e continua se aproveitando do sucesso literário dele. 

— Quanta petulância vindo da cozinha! Quanta amargura de uma mulher invejosa que jamais esteve em Milão! 

— Eu não conheço a Europa. É verdade. Eu conheço a Bíblia, dona Amélia. Na Bíblia, o Criador ensina o ser humano a trabalhar. O Criador ensina o ser humano a amar os outros. A senhora precisa ler a Bíblia! 

— Ler a Bíblia para quê? Para me iludir com a hipótese de um Deus que realiza milagres no mundo? Francamente… 

Pegou um cigarro na sua bolsa comprada em Milão e o acendeu com um isqueiro prata, caríssimo. Começou a fumar afrontosamente. 

— Faça-me o favor de não tentar me evangelizar. É um pedido sincero de uma mulher que pode ser muito cruel com pessoas como você, Matilde. 

Inesperadamente e triunfante, Gaspar entrou na sala dizendo em um tom de voz imponente:

— Seja cruel com a minha querida empregada Matilde e você não verá mais a cor do meu dinheiro, senhora mal-educada!

Amélia virou-se assustada com a frase dita pelo irmão milionário. Os olhos estavam arregalados. O coração acelerado. A máscara da víbora caindo diante de um homem que realmente lia a Palavra de Deus e buscava exercê-la no seu dia a dia. 

— E se continuar insultando a Matilde com palavras tão criminosas e malditas, a cadeia te espera, dona Amélia. 

— Gaspar? Eu… 

— Não precisa se explicar. Eu escutei tudo o que você disse para a Matilde que te recebeu com tanta delicadeza. Poxa! Cadê a educação europeia da senhora Amélia? Esqueceu de agir com nobreza? Ou nobreza é apenas um título usado quando lhe convém, mal-educada? 

— Eu me excedi, Gaspar! Confesso. Foi um erro.

— Eu te conheço, Amélia. Eu sei que você não é humilde. Finge ser em algumas situações, mas logo a farsa é descoberta. 

— Quanta injustiça, meu irmão! Ela também me insultou. 

— É mesmo? 

— Sim. Ela me insultou, Gaspar. A Matilde adora ter que me lembrar que sou uma mulher falida. Ela fala isso com gosto. Eu vejo no olhar dela. O tom de voz dela é de soberba. Mesmo ela sendo empregada, ela é soberba. Gaspar, os pobres também podem ser vilões. 

— Não é o caso da Matilde. Eu a conheço.

— Será, Gaspar? 

— Eu a conheço. O Espírito Santo não me deixa enganado! 

— Lá vem você com esses papos religiosos. Ninguém merece. 

— Os incomodados que se mudem. 

— Entendi — disse Amélia segurando o cigarro aceso. — Eu não dependo só da sua grana. Saiba disso, meu querido irmão. Muitos homens ainda são apaixonados por mim. Se eu quiser, Gaspar, amanhã mesmo eu viajo para Dubai. O que não me faltam são oportunidades de ser feliz longe de você, seu insuportável.

— Insuportável é essa fumaça do seu cigarro. Quantas vezes eu disse que não é para fumar na minha casa? Amélia, eu oro para Deus transformar a sua vida, mas a cada dia você se mostra inflexível com o chamado do Senhor. Eu não te odeio, minha irmã! O que eu quero é te ver firme na presença do Senhor! 

Amélia riu. Provocou enquanto segurava o cigarro ainda aceso, dizendo:

— Sem fantasias. Por favor! Eu já tô bem adulta pra ficar caindo no conto do vigário. Se eu quisesse ir à igreja, Gaspar, eu me arrumava com decência e ia tranquilamente. Acontece que eu não quero ser religiosa. Eu não vejo graça nessa vida de oração tão idealizada nos seus romances cristãos.

— O nosso pai era um homem cristão. Muito cristão, Amélia. Você esqueceu? 

— É verdade, Gaspar! E não. Eu não esqueci de como o nosso pai era cristão.

Ela suspirou. Continuou:

— São escolhas. Eu não me vejo indo à igreja. Simples assim. 

— Simples assim? —questionou o renomado escritor evangélico sentindo-se profundamente triste com as palavras da irmã. — Não se iluda, Amélia. Nós conhecemos as Sagradas Escrituras. Desde pequenos íamos à igreja com o nosso pai. A semente do Evangelho de Jesus foi plantada na sua vida. Por que tanta resistência em aceitá-lo? 

— Meu Deus, Gaspar! É tão difícil você entender? Um homem que escreve e lida com diversos teólogos reconhecidos nacionalmente e até internacionalmente. Não estou diante de um analfabeto. Pelo o que eu sei, o Estado é laico. Eu amo a palavra democracia e não quero ter que ficar dando explicações da minha vida para um religioso que quer me converter ao Cristianismo à força. Por favor! Mais educação e sabedoria, pois o que eu vejo diante de mim é um literato fanático e totalmente distante da verdadeira liberdade que o homem precisa alcançar para ser feliz. Sem dogmas. Sem medos. Simplesmente livre e apto para satisfazer os seus desejos mais íntimos. 

Gaspar franziu a testa. Estava intrigado com a irmã. Perguntou:

— Você voltou a beber uísque, Amélia? 

Ela confirmou balançando a cabeça e questionou:

— Agora é crime beber uísque enquanto observo a natureza? 

— Não é um crime. Você sabe que não.

— Então? Quer que eu largue o uísque só por sua causa? Francamente… 

— É melhor fugir dos vícios. É mais sábio. 

— E quem disse que eu quero ser a rainha da sabedoria em uma sociedade que está doente, meu amoooooor? Por favor, queridooooooooooo! Não me canse com as suas tantas utopias. Eu não acredito que o amanhã será esplêndido só por causa de uma fé gigantesca em Deus. Eu acredito na eficácia do dinheiro. Das relações com pessoas influentes. Capitalismo, Gaspar. Capitalismo. O Cristianismo faz a gente romantizar demais a pobreza. Eu quero é grana! E se o diabo é quem fornece mais grana, é com ele que eu vou fechar. É tão difícil de assimilar? 

— Não. Eu assimilei o que você me disse.

— Ótimo! Maravilhoso!

Deu uma risada de leve, os lábios vermelhos, sedentos de várias bocas masculinas e a postura de mulher que adora quebrar os padrões da sociedade. Comentou:

— Isso significa que fui entendida. Gaspar, eu não nasci ontem. Não pense que eu sou infeliz só porque não vivo guiada pela Bíblia Sagrada. Paris, Milão, Estados Unidos, Espanha, Albânia…

Suspirou envolta pela nostalgia. Prosseguiu:

— Existem muitas maneiras de ser feliz neste mundo. Os jovens se iludem com a religião e com o amor. É até esperado! Afinal, a imaturidade os caracteriza. Eu já deixei de ser moça há décadas. Não posso sofrer por questões tão insignificantes. Se estou viva até hoje, Gaspar, é porque eu soube caminhar me desviando das armadilhas dos homens. Não foi por acaso. 

Gaspar a olhava quase perdendo as esperanças. 

— E não me olhe desse jeito. Detesto ter que escutar  as críticas dos vulneráveis. 

— Todos nós somos vulneráveis — retrucou Gaspar com uma notável agilidade linguística. — A vulnerabilidade atinge todas as classes sociais. Não se coloque em um pedestal, pois a queda pode ser fatal. Reconheça a falibilidade que nos cerca! 

— Nossa! Como ele está afiado! 

Amélia se debulhava no seu deboche cosmopolita. 

— Se revelando aos pouquinhos. Claro! Um homem que esteve nas mais belas semanas de moda em Paris e Milão jamais será como um evangélico autêntico. Aquele evangélico que veio do gueto e fala para o gueto. Sabe? Não adianta tentar se encaixar nos moldes do Cristianismo. A nobreza te chama, meu irmão. E os nobres verdadeiros dificilmente se curvam diante de Deus. 

— Aí que você se engana, minha irmã! Aí que você se engana! 

O olhar de Amélia era de desdém. Ela perguntou:

— Enganada? Eu? 

Riu. 

— Logo eu? Por favor! Uma mulher vivida. Não, meu amooooor. Não mesmo! 

— Figuras muito importantes na sociedade global eram cristãos, Amélia. 

— E…? 

— E é uma loucura você achar que os que acreditam em Deus são analfabetos, vulneráveis… 

Ele estava sério. Demais. Continuou:

— Não seja inflexível. Não se lance na insanidade.

— Lá vem você com a oratória da santa grei.

— Assim como você argumenta que quer ser mundana e eu compreendo o seu vislumbre com as festas, namorados novos, bebidas, viagens, joias… Amélia, compreenda o meu lado também.

— Tá. Eu compreendo. Mais um maluco inserido no Cristianismo. 

— Maluco não. Sábio.

— Como ele se acha — comentou Amélia com um sarcasmo venenoso. — Ele se acha demais. 

Gaspar não retrucou a provocação da irmã que vivia em prol de vãs discussões. 

— Ficou sem fala diante de uma potência como eu? — questionou ela e ajeitou sensualmente o seu vestido. 

— Não. Apenas te peço que te convertas ao Evangelho d’Aquele que tudo criou.

Ela gargalhou. 

— Jamais, querido! Jamais! 

Hotel luxuoso

Analisando os pontos turísticos mais badalados do mundo por meio de uma rede social, Amélia se mostrava animada com a ideia de deixar o Brasil e viver experiências maravilhosas e internacionais. Sendo muito sincero, a ex-milionária detestava o calor do próprio país que nascera e a cada dia se tornava mais intolerante com os influenciadores digitais que iam ganhando projeção. A nostalgia do tempo glorioso que vivera na década de 1970 lhe consumia ardentemente. Era a irmã mais velha, mas tivera a oportunidade de se manter conservada e atraente aos 70 anos de idade. 

— Olhando as imagens mais lindas do mundo? — perguntou Alfredo, um empresário multimilionário e casado. Ele segurava um copo de uísque na mão direita. O olhar de homem sedutor. O porte atlético e o perfume de excelente qualidade. — Quanto tempo eu esperei para te ter nos meus braços novamente. 

Amélia riu. Os lábios vermelhos. 

— Verdade. Nós nos conhecemos em 1976. Belíssimas recordações! 

— Sim. Belíssimas recordações, Amélia! Você tinha 20 anos e eu já era um sedutor experiente. Um sedutor no ápice dos seus 30 anos. Vigor e beleza. 

— Eu tive que ser difícil. 

— Eu sei disso, meu amor. 

— Afinal, você estava noivo de uma sueca e não podia desmanchar tal negócio. 

— É verdade. Aquele casamento foi um negócio muito vantajoso para mim. 

— Para nós — acrescentou Amélia mexendo nos seus cabelos. — Quantos vestidos lindos eu comprei com as quantias vultosas que você me dava. Ah! Ser amante de um homem poderoso sempre será a melhor parte da vida de uma mulher. Amante. Eu sou amante. Adoooooro viver perigosamente! 

Ele sorriu com aquele ar de promiscuidade que permeia os adúlteros. 

— A minha amante preferida! 

— Uma das preferidas. Pensa que não sei.

— Já foi o tempo que eu queria várias — mentiu ele com uma voz cínica. — Agora eu quero só você. Sabe? Eu já te conheço. E o que você faz, Amélia, nenhuma das amantes que tive conseguiu fazer igual.

Ela riu sentindo-se a mulher mais desejada do planeta.

— Sabe o porquê elas não conseguem replicar o que faço? 

— Não. Diga o porquê. 

— Eu sou profissional. 

— É? — perguntou Alfredo com os lábios semiabertos. Havia uma sensualidade extrema na entonação que ele usava para se comunicar. 

— É. Profissional. Mulher que adora a noite. Que esteve ao lado de grandes prostitutas. Muitas delas mais bonitas do que eu. Confesso. Elas me ensinaram muitos segredinhos! 

Riu. Suspirou. Continuou:

— E claro. Eu já fui prostituta. Eu quis ser. Foi por prazer. 

Piscou para Alfredo. Concluiu:

— Foi divertido! Até mais do que imaginei que fosse ser! 

— Você é demais! — afirmou o multimilionário. — É por isso que eu te desejo. Essa sua cara de pau em assumir que foi prostituta é o charme que falta nas mulheres que pensam que ser direita atrai um homem como eu. Coitadas! Um homem como eu gosta de se lambuzar na sujeira. É da sujeira que eu gosto. É de mulheres sem escrúpulos como você, Amélia. Vivida e ainda pronta para se deixar levar mais e mais pela imoralidade que rege os que sabem viver e gozar das delícias deste mundo.

— Exatamente! — afirmou Amélia e já foi abrir a bolsa. Pegou um cigarro. — Exatamente, meu amoooooor! 

Ele estendeu um isqueiro prata para ela.

— Agradeço pela gentileza! 

Acendeu o cigarro da amante e perguntou:

— Preparada para acabar com aquele idiota do Gaspar? 

O olhar de Amélia mudou. Ficou sombrio. 

— Preparadíssima! 

— Um editor importantíssimo, que me deve alguns favores, me deu algumas informações do seu interesse, Amélia. 

— Quais? — perguntou ela curiosa e segurando o cigarro aceso. 

— Uma das informações é que seu irmãozinho está apaixonado pela empregadinha.

Amélia arregalou os olhos. 

— A Matilde? 

— Sim. A doce e humilde Matilde. 

— Não pode ser, Alfredo. Não pode ser.

— Pois é a mais pura verdade.

— Empregadinha desgraçada! 

— Calma! Calma, Amélia! 

— Ela é interesseira! Eu conheço esse tipo de vigarista. Se faz de pobrezinha, mas quer é nadar na grana do patrão apaixonado. 

— Calma, Amélia! Vamos por partes. 

— Continue!

— Além do idiota do Gaspar estar apaixonado, eles pretendem se casar o mais breve possível. 

— Não — Amélia se encontrava perplexa com tal informação. — Casar? Casar com aquela desgraçada da Matilde? Logo ela! Mas… Matilde é apenas uma empregadinha, Alfredo. Apenas uma empregadinha morta de fome. Interesseira. Como o Gaspar foi cair no papo daquela bandida? Vagabunda! 

— Ele é que se interessou por ela. 

— Será? — questionou Amélia maliciosamente. — Ou ele foi seduzido pela falsa modéstia de uma pilantra que se infiltrou na mansão do meu irmão com o plano de fazê-lo a olhar com interesse de homem? 

— Pelo o que eu soube, ela tentou não se entregar ao amor. Acontece que o amor foi mais forte. Ele a procurou. Ele insistiu. E ela, Amélia, pela natureza feminina, se viu impelida a correspondê-lo da maneira mais sincera possível. 

— Amando-o? — questionou a megera. — Não há dúvidas do interesse dela! 

— O Gaspar a procurou com um buquê de flores belíssimas — informou Alfredo caminhando na direção da sacada do hotel. Ficou de costas para Amélia que naquele momento estava morrendo de inveja de Matilde, a empregada. — Ele me parece ser um homem romântico e decidido. Óbvio! Ele escreve romances cristãos. Tal ofício literário exige muito apreço pelas Sagradas Escrituras. E muita fé em Deus. Minha mãe era protestante. Uma fiel protestante que lia inúmeras passagens bíblicas para mim quando eu era um menino. Apenas um menino.

No olhar dele, uma leve amargura se fez visível por alguns instantes. Escutava-se o barulho de carros na grande cidade. 

— Falando isso, parece até que você gosta dos livros que o Gaspar escreve. 

— São narrativas construídas por um autor experiente na literatura cristã. Isso é notório, Amélia! Ele se consagrou no gênero e as vendagens gigantes e o prestígio religioso que ele possui são provas irrefutáveis de que o Gaspar soube se fazer grande no mercado editorial. 

— Tantos elogios… 

Ela já estava desconfiada. 

— Parece até que quer mudar de lado. 

Ele se virou e encarou Amélia. 

— Eu não sou cristão! 

— Então por que o defende assim com tanto apreço? 

— Porque a trajetória literária dele é brilhante segundo as expectativas do mercado editorial brasileiro e mundial também. 

— E daí, Alfredo? No final, ele planeja se casar com uma empregadinha. Narrativa ridícula! 

— Eu sei que para você é complicado aceitar tal situação, mas….

— Mas nada, Alfredo. Eu não tenho que aceitar essa situação. Eu não quero aceitar. Entende? Não é difícil de assimilar!

— Calma, Amélia! Apesar de reconhecer a carreira exitosa dele na literatura cristã, eu vou te ajudar a destruir a vida do Gaspar. Relaxa, meu amor! 

— Como? — quis saber ela. 

— De uma maneira elegante. 

— De uma maneira elegante? 

— Sim. 

— Explique, Alfredo!

— Nós vamos interferir na vida do Gaspar. Aos poucos. 

Ele sorriu com um ar de vilania. 

— Aos pouquinhos. 

— E…? 

— E ele terá que resolver alguns problemas aqui, outros ali. Vamos nos esmerar em atormentar a existência dele com a finalidade de deixá-lo triste, cansado, descrente da própria capacidade como indivíduo. Vamos colocar um concorrente contratado para tirar dele o posto de ficcionista cristão número um e também causar problemas no dia a dia da Matilde e da mãe dela que é tão pobrezinha e vulnerável.

Amélia sorriu com um olhar de altivez. Afirmou:

— Adorei todas essas propostas, querido! 

Ele se aproximou dela em passos calculados e questionou:

— Promete que não vai se arrepender depois? 

Ela não respondeu logo. Ambos se olharam com intensidade. 

— Promete? 

— Prometo, Alfredo. 

— Porque eu também soube que ele é um homem melancólico. Se as coisas piorarem, ele pode até querer se suicidar. Se ele fizer isso, nós vencemos o jogo. Por isso é preciso agir com frieza. Não dê lugar aos sentimentalismos, Amélia! O Gaspar não é mais forte do que nós dois. E por você, meu amor, eu passo a odiar o Gaspar! Não duvide das loucuras que um homem apaixonado pode fazer para satisfazer os caprichos de uma amante. 

— Eu sei que você pode e deve fazer loucuras por mim. 

— Por você, sem dúvidas, eu passo a odiar o Gaspar! 

Alberto Ayala Filho é um escritor evangélico e colunista em diversos sites de Rondônia. Também é ficcionista cristão. Aos 26 anos de idade, exerce um ministério na literatura cristã e enfatiza que a Bíblia é o livro mais sábio da civilização humana.

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Gaspar | Capítulo 1

Claro que confiava no Senhor. Claro que todos os seus anseios eram apresentados ao Rei

Alberto Ayala Filho
Publicada em 30 de setembro de 2026 às 17:45
Gaspar | Capítulo 1

A cidade movimentada e o calor daquela tarde de terça-feira, 29 de setembro de 2026. Gaspar estava sentado no banco dos passageiros enquanto o motorista o observava discretamente pelo espelho retrovisor interno. Viver no Brasil era muito diferente da realidade francesa. Mesmo que ele fosse um homem com apreço pela humildade nas relações interpessoais, tinha alguns receios da nefasta violência que a cada dia se instaurava com veemência neste país. Queria ser mais aberto às pessoas. No entanto, escolhera a discrição como uma forma de defesa. Era mais sábio não se iludir com as utopias apregoadas pelos que não compreendiam a dura verdade que até hoje espanta os que se consideram fortes demais para não se alarmar com o horror existencial. 

Claro que confiava no Senhor. Claro que todos os seus anseios eram apresentados ao Rei. Acontece que apesar da esplêndida aura celestial que é irrefutável na vida dos verdadeiros cristãos, fechava-se em diversos momentos. Momentos que pareciam eternos. Só pareciam, mas que já causavam aquela sensação de distanciamento do calor humano exigido por alguém que precisa do público. Diante dos holofotes, geralmente, usava roupas elegantíssimas e de grifes famosas. Uma das suas táticas mais ousadas sendo hétero? Sim, de certa forma. Afinal, entendia a importância de ser lembrado como uma figura diferente. Como faria para se distinguir? Havia uma lista do que fazer, de como se comportar e do que falar. Ele era natural. Não havia fingimento. Só que também se aproveita dos artifícios de um exímio estrategista literário em um contexto em que a maioria dos escritores não faziam fortunas com suas publicações. Era estiloso e os editores sentiam-se aliviados em saber que Gaspar era um homem que sentia atração pelo sexo oposto. 

“Ora, tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério de reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra de reconciliação. Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Em nome de Cristo, pois, pedimos que vocês se reconcilie com Deus. Aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, n’Ele, fôssemos feitos justiça de Deus.” 

2 Coríntios 5:18-21

São Paulo

— Você acha que o trânsito vai melhorar, Frederico? — perguntou  Gaspar com uma sofisticação europeia. O estilo de homem que exalava a nobreza sem dizer nenhuma palavra. 

— Creio que sim, senhor — respondeu o motorista com um olhar de preocupação. As pernas inquietas e o desejo de ser muito eficaz no seu ofício. 

— É assim mesmo. O caos da cidade grande e os homens que estão ávidos pelo dinheiro — comentou o patrão em um tom reflexivo. — Uma busca pelo reconhecimento. Às vezes…

Pausa dramática de um homem calejado pelo tempo. Continuou:

— Na maioria das vezes, o reconhecimento não vem. De propósito. Não por falta da qualidade dos que executam as tarefas mais emblemáticas nesta sociedade. 

— O senhor fala de um jeito — disse Frederico com temor de parecer invasivo. — É um escritor famoso. Realmente sabe o que está dizendo, mas soa como uma oratória melancólica. Me remete à tristeza. E a tristeza engaveta os sonhos e as mais esplêndidas aspirações. 

— É verdade — concordou Gaspar ajeitando-se levemente no banco de trás do luxuoso carro. — É verdade, Frederico. Por anos fui um homem que cultivou um notável apreço pela positividade. Acontece que amadurecer significa ter que abrir mão das vãs ilusões. Encara-se a verdade rejeitada pelos que adoram se autoenganar com devaneios. 

— Compreendo que a vida não é um mar de rosas, senhor. Só que… não é melhor acreditar nas alegrias do que nas tristezas? 

Gaspar não respondeu de imediato. Processou a pergunta por alguns instantes. 

— É melhor acreditar nas alegrias da vida, Frederico! 

— Então? Com todo o respeito, eu não gosto de ver o senhor assim. 

— Assim como? 

— Se lamentando. Não é legal, patrão! Logo o senhor que é um homem que possui tanta inteligência. As pessoas gostam de ler os seus romances cristãos. Elas se inspiram nas narrativas que o senhor escreve. 

— Romances cristãos… 

Gaspar estava longe.

— Eu mesmo indico para alguns amigos que vão à igreja e todos eles se sentem tocados pela escrita do senhor. Ela aproxima muita gente de Deus. É diferente dos romances que são publicados apenas para vender. Os modismos passam, patrão. Já as palavras do Criador permanecem e nos conduzem à vida eterna. Os romances cristãos que o senhor escreve apontam para o Todo-Poderoso. É uma belíssima missão literária! Uma missão indubitável. 

— Eu sei, Frederico! 

— Fico feliz pelo senhor! 

— Mas eu estou em uma fase de grandes reflexões. Um período para me refazer como ficcionista religioso. Para enxergar as duras verdades e as mais belas oportunidades que estão ao meu redor. 

Frederico deu um sorriso amigável. Disse:

— Saiba que estarei orando pelo senhor.

— Agradeço por tal benevolência, querido. 

— Estou aqui para honrá-lo como patrão! — afirmou o motorista. 

— Eu admiro a sua lealdade — disse Gaspar. Respirou fundo. O seu perfume francês era maravilhoso. — És um servo de Deus!

Então, o trânsito começou a melhorar. Frederico comemorou com um sorriso. Foi dirigindo por uma importante avenida da cidade em direção a mansão do escritor. 

Mansão de Gaspar

As janelas da sala espaçosa encontravam-se abertas, revelando um lindíssimo jardim repleto de plantas e flores de diversas cores. O vento fresco tão delicioso! A sinfonia dos pássaros ao ritmo da natureza criada por Aquele que subsiste antes de todas as coisas. 

Sentada em um belíssimo sofá, Amélia, a irmã do escritor, toda vaidosa e já tomando um chá de camomila e se deliciando com os biscoitos de chocolate que a empregada havia preparado horas antes.

— Eu amo o Gaspar, Matilde — disse Amélia envolta por uma empolgação incomum. — Mas ele é tão distante. Tão frio às vezes. Nem parece aquele Gaspar que amava percorrer as elegantíssimas ruas de Paris. Ah! Paris e os vários cavalheiros que me achavam linda. E eu era linda. Ainda sou, claro. Só que a beleza da juventude é diferente. Sabe? A pele, os trejeitos, o olhar, as ideias. O frescor de ser cortejada e ainda sentir uma emoção de entender que o novo te espera. Ah! Tantas lembranças de um passado glorioso. As joias. Eu tinha tantas joias e já fui pintada por vários artistas plásticos italianos. 

— O senhor Gaspar já me mostrou várias fotos de vocês dois em Paris, Veneza, Itália, Estados Unidos, Espanha… 

— Espanha. ¡Me enamoré de un español tan bello y educado! Javier y su voz tan hermosa. ¡Aún lo extraño!

— Nossa, dona Amélia! A senhora é viajada mesmo, hein?! Sabe falar até espanhol. 

— Claro que eu sou viajada! Eu estudei em colégios particulares. Eu tive aulas com professores de idiomas que eram maravilhosos e lindos. 

— Nossa! Tô impactada! 

— Eu sei que sou uma diva.

— E por que a senhora ficou pobre? — perguntou a empregada inocentemente. 

De repente, toda a espontaneidade de Amélia foi embora. Até o olhar mudou. Assumiu uma postura arrogante. 

— E quem é você para ficar me fazendo perguntas tão indiscretas? Por acaso nós somos duas amiguinhas? Se coloque no seu devido lugar, Matilde. 

— Desculpa, senhora! 

— Está desculpada! 

— Não vai mais se repetir.

— Espero que não. Afinal, somos duas mulheres completamente diferentes. Eu nasci em berço de ouro. E você? 

— Eu sou de origem humilde, dona Amélia. Meu pai e a minha mãe não sabiam nem ler, nem escrever. 

— Coitados! Coitada de você, Matilde! É por isso que você não sabe se comportar direito. A vida é assim mesmo. Muitas injustiças. Muitas desigualdades e você, infelizmente, me parece que não nasceu para vencer. Nem para dar um golpe em um velho rico e doente serviu. Muita tristeza nessa sua vida predestinada ao horror! 

Os olhos de Matilde ficaram marejados. Ela sentiu na pele a dor da humilhação naquele momento.

— Não fica assim não. Enquanto há vida, Matilde, há esperança. Eu conheço alguns velhos que adorariam se envolver com uma mulher mais nova. Mesmo burrinha. Assim é que eles gostam mesmo.

— Eu não sou esse tipo de mulher que se envolve com um homem mais velho apenas pelo dinheiro. Eu acredito em Jesus. Eu tenho caráter.

— Jesus? — questionou Amélia em um tom de deboche. Deu uma risada. — Por favor! Jesus? E você acredita nas mentiras que o meu irmão, seu patrão, escreve naqueles romances tenebrosos?

— Não fale assim do senhor Gaspar, dona Amélia. Ele escreve romances abençoados por Deus.

Sentindo-se provocada, Amélia levantou-se do sofá e gritou: 

— Está discordando de mim, empregadinha miserável? 

Mesmo assustada, Matilde não abaixou a cabeça e respondeu:

— Estou, dona Amélia. E se a senhora continuar me agredindo com palavras e ousar me dar um tapa, eu chamo a polícia. Eu não tenho medo da senhora. E eu não sou tão burra assim. Eu conheço os meus direitos. Mereço ser respeitada!

Amélia riu. Ajeitou os cabelos loiros, levemente ondulados e hidratados. Disse:

— E assim a população vai se rebelando contra os que realmente são educados. A população pensa que pode, mas no fundo não passa de um bando de famintos que nunca serão nobres. Desgraçados! Desgraçados que dependem das migalhas! Roedores de migalhas. 

— A senhora se acha muito, mas depende do dinheiro do seu irmão que faz sucesso como escritor cristão. O senhor Gaspar é um homem tão generoso. Tão fiel a Deus. Ele poderia muito bem não querer ajudar a senhora. Só que ele escolheu agir diferente. Ele é humano. Como é que a senhora tem coragem de ser assim? Tão má. Tão ingrata. Detesta os romances cristãos que o senhor Gaspar escreve e continua se aproveitando do sucesso literário dele. 

— Quanta petulância vindo da cozinha! Quanta amargura de uma mulher invejosa que jamais esteve em Milão! 

— Eu não conheço a Europa. É verdade. Eu conheço a Bíblia, dona Amélia. Na Bíblia, o Criador ensina o ser humano a trabalhar. O Criador ensina o ser humano a amar os outros. A senhora precisa ler a Bíblia! 

— Ler a Bíblia para quê? Para me iludir com a hipótese de um Deus que realiza milagres no mundo? Francamente… 

Pegou um cigarro na sua bolsa comprada em Milão e o acendeu com um isqueiro prata, caríssimo. Começou a fumar afrontosamente. 

— Faça-me o favor de não tentar me evangelizar. É um pedido sincero de uma mulher que pode ser muito cruel com pessoas como você, Matilde. 

Inesperadamente e triunfante, Gaspar entrou na sala dizendo em um tom de voz imponente:

— Seja cruel com a minha querida empregada Matilde e você não verá mais a cor do meu dinheiro, senhora mal-educada!

Amélia virou-se assustada com a frase dita pelo irmão milionário. Os olhos estavam arregalados. O coração acelerado. A máscara da víbora caindo diante de um homem que realmente lia a Palavra de Deus e buscava exercê-la no seu dia a dia. 

— E se continuar insultando a Matilde com palavras tão criminosas e malditas, a cadeia te espera, dona Amélia. 

— Gaspar? Eu… 

— Não precisa se explicar. Eu escutei tudo o que você disse para a Matilde que te recebeu com tanta delicadeza. Poxa! Cadê a educação europeia da senhora Amélia? Esqueceu de agir com nobreza? Ou nobreza é apenas um título usado quando lhe convém, mal-educada? 

— Eu me excedi, Gaspar! Confesso. Foi um erro.

— Eu te conheço, Amélia. Eu sei que você não é humilde. Finge ser em algumas situações, mas logo a farsa é descoberta. 

— Quanta injustiça, meu irmão! Ela também me insultou. 

— É mesmo? 

— Sim. Ela me insultou, Gaspar. A Matilde adora ter que me lembrar que sou uma mulher falida. Ela fala isso com gosto. Eu vejo no olhar dela. O tom de voz dela é de soberba. Mesmo ela sendo empregada, ela é soberba. Gaspar, os pobres também podem ser vilões. 

— Não é o caso da Matilde. Eu a conheço.

— Será, Gaspar? 

— Eu a conheço. O Espírito Santo não me deixa enganado! 

— Lá vem você com esses papos religiosos. Ninguém merece. 

— Os incomodados que se mudem. 

— Entendi — disse Amélia segurando o cigarro aceso. — Eu não dependo só da sua grana. Saiba disso, meu querido irmão. Muitos homens ainda são apaixonados por mim. Se eu quiser, Gaspar, amanhã mesmo eu viajo para Dubai. O que não me faltam são oportunidades de ser feliz longe de você, seu insuportável.

— Insuportável é essa fumaça do seu cigarro. Quantas vezes eu disse que não é para fumar na minha casa? Amélia, eu oro para Deus transformar a sua vida, mas a cada dia você se mostra inflexível com o chamado do Senhor. Eu não te odeio, minha irmã! O que eu quero é te ver firme na presença do Senhor! 

Amélia riu. Provocou enquanto segurava o cigarro ainda aceso, dizendo:

— Sem fantasias. Por favor! Eu já tô bem adulta pra ficar caindo no conto do vigário. Se eu quisesse ir à igreja, Gaspar, eu me arrumava com decência e ia tranquilamente. Acontece que eu não quero ser religiosa. Eu não vejo graça nessa vida de oração tão idealizada nos seus romances cristãos.

— O nosso pai era um homem cristão. Muito cristão, Amélia. Você esqueceu? 

— É verdade, Gaspar! E não. Eu não esqueci de como o nosso pai era cristão.

Ela suspirou. Continuou:

— São escolhas. Eu não me vejo indo à igreja. Simples assim. 

— Simples assim? —questionou o renomado escritor evangélico sentindo-se profundamente triste com as palavras da irmã. — Não se iluda, Amélia. Nós conhecemos as Sagradas Escrituras. Desde pequenos íamos à igreja com o nosso pai. A semente do Evangelho de Jesus foi plantada na sua vida. Por que tanta resistência em aceitá-lo? 

— Meu Deus, Gaspar! É tão difícil você entender? Um homem que escreve e lida com diversos teólogos reconhecidos nacionalmente e até internacionalmente. Não estou diante de um analfabeto. Pelo o que eu sei, o Estado é laico. Eu amo a palavra democracia e não quero ter que ficar dando explicações da minha vida para um religioso que quer me converter ao Cristianismo à força. Por favor! Mais educação e sabedoria, pois o que eu vejo diante de mim é um literato fanático e totalmente distante da verdadeira liberdade que o homem precisa alcançar para ser feliz. Sem dogmas. Sem medos. Simplesmente livre e apto para satisfazer os seus desejos mais íntimos. 

Gaspar franziu a testa. Estava intrigado com a irmã. Perguntou:

— Você voltou a beber uísque, Amélia? 

Ela confirmou balançando a cabeça e questionou:

— Agora é crime beber uísque enquanto observo a natureza? 

— Não é um crime. Você sabe que não.

— Então? Quer que eu largue o uísque só por sua causa? Francamente… 

— É melhor fugir dos vícios. É mais sábio. 

— E quem disse que eu quero ser a rainha da sabedoria em uma sociedade que está doente, meu amoooooor? Por favor, queridooooooooooo! Não me canse com as suas tantas utopias. Eu não acredito que o amanhã será esplêndido só por causa de uma fé gigantesca em Deus. Eu acredito na eficácia do dinheiro. Das relações com pessoas influentes. Capitalismo, Gaspar. Capitalismo. O Cristianismo faz a gente romantizar demais a pobreza. Eu quero é grana! E se o diabo é quem fornece mais grana, é com ele que eu vou fechar. É tão difícil de assimilar? 

— Não. Eu assimilei o que você me disse.

— Ótimo! Maravilhoso!

Deu uma risada de leve, os lábios vermelhos, sedentos de várias bocas masculinas e a postura de mulher que adora quebrar os padrões da sociedade. Comentou:

— Isso significa que fui entendida. Gaspar, eu não nasci ontem. Não pense que eu sou infeliz só porque não vivo guiada pela Bíblia Sagrada. Paris, Milão, Estados Unidos, Espanha, Albânia…

Suspirou envolta pela nostalgia. Prosseguiu:

— Existem muitas maneiras de ser feliz neste mundo. Os jovens se iludem com a religião e com o amor. É até esperado! Afinal, a imaturidade os caracteriza. Eu já deixei de ser moça há décadas. Não posso sofrer por questões tão insignificantes. Se estou viva até hoje, Gaspar, é porque eu soube caminhar me desviando das armadilhas dos homens. Não foi por acaso. 

Gaspar a olhava quase perdendo as esperanças. 

— E não me olhe desse jeito. Detesto ter que escutar  as críticas dos vulneráveis. 

— Todos nós somos vulneráveis — retrucou Gaspar com uma notável agilidade linguística. — A vulnerabilidade atinge todas as classes sociais. Não se coloque em um pedestal, pois a queda pode ser fatal. Reconheça a falibilidade que nos cerca! 

— Nossa! Como ele está afiado! 

Amélia se debulhava no seu deboche cosmopolita. 

— Se revelando aos pouquinhos. Claro! Um homem que esteve nas mais belas semanas de moda em Paris e Milão jamais será como um evangélico autêntico. Aquele evangélico que veio do gueto e fala para o gueto. Sabe? Não adianta tentar se encaixar nos moldes do Cristianismo. A nobreza te chama, meu irmão. E os nobres verdadeiros dificilmente se curvam diante de Deus. 

— Aí que você se engana, minha irmã! Aí que você se engana! 

O olhar de Amélia era de desdém. Ela perguntou:

— Enganada? Eu? 

Riu. 

— Logo eu? Por favor! Uma mulher vivida. Não, meu amooooor. Não mesmo! 

— Figuras muito importantes na sociedade global eram cristãos, Amélia. 

— E…? 

— E é uma loucura você achar que os que acreditam em Deus são analfabetos, vulneráveis… 

Ele estava sério. Demais. Continuou:

— Não seja inflexível. Não se lance na insanidade.

— Lá vem você com a oratória da santa grei.

— Assim como você argumenta que quer ser mundana e eu compreendo o seu vislumbre com as festas, namorados novos, bebidas, viagens, joias… Amélia, compreenda o meu lado também.

— Tá. Eu compreendo. Mais um maluco inserido no Cristianismo. 

— Maluco não. Sábio.

— Como ele se acha — comentou Amélia com um sarcasmo venenoso. — Ele se acha demais. 

Gaspar não retrucou a provocação da irmã que vivia em prol de vãs discussões. 

— Ficou sem fala diante de uma potência como eu? — questionou ela e ajeitou sensualmente o seu vestido. 

— Não. Apenas te peço que te convertas ao Evangelho d’Aquele que tudo criou.

Ela gargalhou. 

— Jamais, querido! Jamais! 

Hotel luxuoso

Analisando os pontos turísticos mais badalados do mundo por meio de uma rede social, Amélia se mostrava animada com a ideia de deixar o Brasil e viver experiências maravilhosas e internacionais. Sendo muito sincero, a ex-milionária detestava o calor do próprio país que nascera e a cada dia se tornava mais intolerante com os influenciadores digitais que iam ganhando projeção. A nostalgia do tempo glorioso que vivera na década de 1970 lhe consumia ardentemente. Era a irmã mais velha, mas tivera a oportunidade de se manter conservada e atraente aos 70 anos de idade. 

— Olhando as imagens mais lindas do mundo? — perguntou Alfredo, um empresário multimilionário e casado. Ele segurava um copo de uísque na mão direita. O olhar de homem sedutor. O porte atlético e o perfume de excelente qualidade. — Quanto tempo eu esperei para te ter nos meus braços novamente. 

Amélia riu. Os lábios vermelhos. 

— Verdade. Nós nos conhecemos em 1976. Belíssimas recordações! 

— Sim. Belíssimas recordações, Amélia! Você tinha 20 anos e eu já era um sedutor experiente. Um sedutor no ápice dos seus 30 anos. Vigor e beleza. 

— Eu tive que ser difícil. 

— Eu sei disso, meu amor. 

— Afinal, você estava noivo de uma sueca e não podia desmanchar tal negócio. 

— É verdade. Aquele casamento foi um negócio muito vantajoso para mim. 

— Para nós — acrescentou Amélia mexendo nos seus cabelos. — Quantos vestidos lindos eu comprei com as quantias vultosas que você me dava. Ah! Ser amante de um homem poderoso sempre será a melhor parte da vida de uma mulher. Amante. Eu sou amante. Adoooooro viver perigosamente! 

Ele sorriu com aquele ar de promiscuidade que permeia os adúlteros. 

— A minha amante preferida! 

— Uma das preferidas. Pensa que não sei.

— Já foi o tempo que eu queria várias — mentiu ele com uma voz cínica. — Agora eu quero só você. Sabe? Eu já te conheço. E o que você faz, Amélia, nenhuma das amantes que tive conseguiu fazer igual.

Ela riu sentindo-se a mulher mais desejada do planeta.

— Sabe o porquê elas não conseguem replicar o que faço? 

— Não. Diga o porquê. 

— Eu sou profissional. 

— É? — perguntou Alfredo com os lábios semiabertos. Havia uma sensualidade extrema na entonação que ele usava para se comunicar. 

— É. Profissional. Mulher que adora a noite. Que esteve ao lado de grandes prostitutas. Muitas delas mais bonitas do que eu. Confesso. Elas me ensinaram muitos segredinhos! 

Riu. Suspirou. Continuou:

— E claro. Eu já fui prostituta. Eu quis ser. Foi por prazer. 

Piscou para Alfredo. Concluiu:

— Foi divertido! Até mais do que imaginei que fosse ser! 

— Você é demais! — afirmou o multimilionário. — É por isso que eu te desejo. Essa sua cara de pau em assumir que foi prostituta é o charme que falta nas mulheres que pensam que ser direita atrai um homem como eu. Coitadas! Um homem como eu gosta de se lambuzar na sujeira. É da sujeira que eu gosto. É de mulheres sem escrúpulos como você, Amélia. Vivida e ainda pronta para se deixar levar mais e mais pela imoralidade que rege os que sabem viver e gozar das delícias deste mundo.

— Exatamente! — afirmou Amélia e já foi abrir a bolsa. Pegou um cigarro. — Exatamente, meu amoooooor! 

Ele estendeu um isqueiro prata para ela.

— Agradeço pela gentileza! 

Acendeu o cigarro da amante e perguntou:

— Preparada para acabar com aquele idiota do Gaspar? 

O olhar de Amélia mudou. Ficou sombrio. 

— Preparadíssima! 

— Um editor importantíssimo, que me deve alguns favores, me deu algumas informações do seu interesse, Amélia. 

— Quais? — perguntou ela curiosa e segurando o cigarro aceso. 

— Uma das informações é que seu irmãozinho está apaixonado pela empregadinha.

Amélia arregalou os olhos. 

— A Matilde? 

— Sim. A doce e humilde Matilde. 

— Não pode ser, Alfredo. Não pode ser.

— Pois é a mais pura verdade.

— Empregadinha desgraçada! 

— Calma! Calma, Amélia! 

— Ela é interesseira! Eu conheço esse tipo de vigarista. Se faz de pobrezinha, mas quer é nadar na grana do patrão apaixonado. 

— Calma, Amélia! Vamos por partes. 

— Continue!

— Além do idiota do Gaspar estar apaixonado, eles pretendem se casar o mais breve possível. 

— Não — Amélia se encontrava perplexa com tal informação. — Casar? Casar com aquela desgraçada da Matilde? Logo ela! Mas… Matilde é apenas uma empregadinha, Alfredo. Apenas uma empregadinha morta de fome. Interesseira. Como o Gaspar foi cair no papo daquela bandida? Vagabunda! 

— Ele é que se interessou por ela. 

— Será? — questionou Amélia maliciosamente. — Ou ele foi seduzido pela falsa modéstia de uma pilantra que se infiltrou na mansão do meu irmão com o plano de fazê-lo a olhar com interesse de homem? 

— Pelo o que eu soube, ela tentou não se entregar ao amor. Acontece que o amor foi mais forte. Ele a procurou. Ele insistiu. E ela, Amélia, pela natureza feminina, se viu impelida a correspondê-lo da maneira mais sincera possível. 

— Amando-o? — questionou a megera. — Não há dúvidas do interesse dela! 

— O Gaspar a procurou com um buquê de flores belíssimas — informou Alfredo caminhando na direção da sacada do hotel. Ficou de costas para Amélia que naquele momento estava morrendo de inveja de Matilde, a empregada. — Ele me parece ser um homem romântico e decidido. Óbvio! Ele escreve romances cristãos. Tal ofício literário exige muito apreço pelas Sagradas Escrituras. E muita fé em Deus. Minha mãe era protestante. Uma fiel protestante que lia inúmeras passagens bíblicas para mim quando eu era um menino. Apenas um menino.

No olhar dele, uma leve amargura se fez visível por alguns instantes. Escutava-se o barulho de carros na grande cidade. 

— Falando isso, parece até que você gosta dos livros que o Gaspar escreve. 

— São narrativas construídas por um autor experiente na literatura cristã. Isso é notório, Amélia! Ele se consagrou no gênero e as vendagens gigantes e o prestígio religioso que ele possui são provas irrefutáveis de que o Gaspar soube se fazer grande no mercado editorial. 

— Tantos elogios… 

Ela já estava desconfiada. 

— Parece até que quer mudar de lado. 

Ele se virou e encarou Amélia. 

— Eu não sou cristão! 

— Então por que o defende assim com tanto apreço? 

— Porque a trajetória literária dele é brilhante segundo as expectativas do mercado editorial brasileiro e mundial também. 

— E daí, Alfredo? No final, ele planeja se casar com uma empregadinha. Narrativa ridícula! 

— Eu sei que para você é complicado aceitar tal situação, mas….

— Mas nada, Alfredo. Eu não tenho que aceitar essa situação. Eu não quero aceitar. Entende? Não é difícil de assimilar!

— Calma, Amélia! Apesar de reconhecer a carreira exitosa dele na literatura cristã, eu vou te ajudar a destruir a vida do Gaspar. Relaxa, meu amor! 

— Como? — quis saber ela. 

— De uma maneira elegante. 

— De uma maneira elegante? 

— Sim. 

— Explique, Alfredo!

— Nós vamos interferir na vida do Gaspar. Aos poucos. 

Ele sorriu com um ar de vilania. 

— Aos pouquinhos. 

— E…? 

— E ele terá que resolver alguns problemas aqui, outros ali. Vamos nos esmerar em atormentar a existência dele com a finalidade de deixá-lo triste, cansado, descrente da própria capacidade como indivíduo. Vamos colocar um concorrente contratado para tirar dele o posto de ficcionista cristão número um e também causar problemas no dia a dia da Matilde e da mãe dela que é tão pobrezinha e vulnerável.

Amélia sorriu com um olhar de altivez. Afirmou:

— Adorei todas essas propostas, querido! 

Ele se aproximou dela em passos calculados e questionou:

— Promete que não vai se arrepender depois? 

Ela não respondeu logo. Ambos se olharam com intensidade. 

— Promete? 

— Prometo, Alfredo. 

— Porque eu também soube que ele é um homem melancólico. Se as coisas piorarem, ele pode até querer se suicidar. Se ele fizer isso, nós vencemos o jogo. Por isso é preciso agir com frieza. Não dê lugar aos sentimentalismos, Amélia! O Gaspar não é mais forte do que nós dois. E por você, meu amor, eu passo a odiar o Gaspar! Não duvide das loucuras que um homem apaixonado pode fazer para satisfazer os caprichos de uma amante. 

— Eu sei que você pode e deve fazer loucuras por mim. 

— Por você, sem dúvidas, eu passo a odiar o Gaspar! 

Alberto Ayala Filho é um escritor evangélico e colunista em diversos sites de Rondônia. Também é ficcionista cristão. Aos 26 anos de idade, exerce um ministério na literatura cristã e enfatiza que a Bíblia é o livro mais sábio da civilização humana.

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