Henrique | Capítulo 1
Ainda não eram 10:30 da manhã e ele já estava imerso em suas tantas reflexões
Capítulo 1
Quando Henrique se pôs a observar o belíssimo jardim da mansão, foi inevitável o sorriso sincero de um homem que cultivara ao longo dos anos o apreço pela Bíblia Sagrada e seus indubitáveis ensinos. Ainda não eram 10:30 da manhã e ele já estava imerso em suas tantas reflexões. Afinal, era um literato religioso e escrever romances a respeito de cristãos na sociedade moderna o fazia buscar mais e mais a presença do Senhor e se aplicar nos estudos bíblicos. Desde cedo aprendera que a vida pautada nas alegrias eclesiásticas tinha mais sabor. “Eu acho as histórias do Velho Testamento muito interessantes. As do Novo Testamento também.”, dizia ele aos 11 anos de idade enquanto segurava uma edição Deluxe da Palavra de Jeová e olhava extasiado para os inúmeros romances que sua mãe comprara e que se encontravam organizados no sofisticado escritório daquela casa tão notável e confortável. “São lições preciosas que Ele nos deixou, querido. E é gratificante vê-lo lendo essas histórias e ainda as compartilhando com os seus amigos lá no México. Com certeza eles vão querer saber mais sobre um Deus que não apenas criou os céus e a Terra, mas que ainda realiza maravilhas na vida dos que O invocam em espírito e em verdade.”
— Deus é majestoso! — afirmou Henrique envolto por uma alegria celestial e nos seus expressivos olhos azuis um brilho que vinha do Espírito Santo.
Geralmente, o literato evangélico se levantava antes das 06:30. Tinha hábitos muito regrados e sabia da importância de viver sob responsabilidades que para ele eram imprescindíveis. Largara a carreira secular para se dedicar à proclamação do Evangelho de Jesus por meio de narrativas que eram classificadas pelo mercado editorial nacional como: Ficção Cristã. Teve êxito com seus livros enquanto não ia à igreja? Sim. Muito. Vendera mais de 1 milhão de cópias no começo de 2018. Viajara por diversos continentes e pensava que a vida perfeita era aquela: aplausos, conferências, críticas positivas nos maiores sites do país e a vaidade de ser traduzido para mais de 30 idiomas logo no começo da carreira como romancista. Foi sorte? Sinceramente, não. Ele realmente se dedicava à literatura com um esmero admirável e invejável aos olhos dos escritores mais relapsos. No entanto, entregava-se à melancolia e aos pensamentos negativos. Sentia um enorme e nefasto prazer em agourar a própria existência com sugestões e ideias que namoravam ardentemente a insanidade. Mesmo com um nível intelectual acima da média e uma condição financeira excelente, preferia acreditar que não merecia a alegria e que não era digno de ser amado verdadeiramente por uma mulher. Via-se como uma figura esdrúxula. Olhava-se no espelho por longos e longos minutos e começava um jogo terrível de enumerar seus “piores defeitos físicos.”
Assim foi vivendo e vivendo por anos e anos. Tomava mais de 15 xícaras de café em um dia e gostava de chorar escutando músicas românticas internacionais.
— Eu acredito que o amor existe, Frederico — disse o literato em um tom melancólico. Segurava elegantemente uma xícara de café. — Claro que eu acredito que o amor existe! Mas… sendo muito sincero, Frederico, eu não acho que estou apto para vivenciá-lo inteiramente. Creio que… apenas me são dadas as ilusões do que é amar. Porque… eu dificilmente me vejo como um homem verdadeiramente admirado por uma mulher linda e repleta de virtudes. Consegue me compreender?
Tantas as aspirações amorosas que ele tinha e não percebia que estavam distantes dos círculos que frequentava, achando que poderia encontrar uma mulher com a lista de características e qualidades que fizera em silêncio. Tantos os silêncios nas manhãs solitárias. Muitos deles pareciam intermináveis. Olhava para o céu e via-se como realmente era: finito. Porém, não era uma consciência saudável da sua finitude nesta sociedade. Era uma distorção tenebrosa da própria persona.
— Finalmente, eu posso ficar sossegado quando acabam as entrevistas, os autógrafos, as muitas fotos que os leitores me pedem — confessou ele. — Sossegado e muito distante do falso glamour que até envaidece, mas também sufoca aquele que não sabe lidar corretamente com as expectativas exacerbadas dos admiradores. Ah! Eu agradeço por ser um homem milionário. Agradeço mesmo. Logo eu que fui tão desmotivado por professores, conhecidos, supostos mentores intelectuais. Sabe? É uma enorme satisfação existencial. Literária. Entender que eu consegui me tornar milionário apenas sendo escritor.

O amigo, Frederico, respirou fundo. Estava sentado em um belíssimo sofá. Perguntou:
— Por que você se afastou da igreja, Henrique?
O literato tomou um susto. Não respondeu logo. Refletiu por alguns segundos.
— Não houve um motivo tão escandaloso. Nenhum sequer. Eu… simplesmente me afastei.
— Aí que você se engana, Henrique. Simplesmente me afastei? Não. Não é tão simples se afastar de Deus. Não é poético como muitos dos seus colegas dizem. Não seja levado por essas vozes que ditam as tendências que o mundo aprova. Lembre-se de que as admoestações do Senhor são infalibilíssimas. Ontem mesmo eu estava meditando nas Sagradas Escrituras e… o Senhor falou comigo poderosamente, meu amigo. Poderosamente. Sabe o porquê?
— Por quê?
— Porque eu valorizo a Bíblia Sagrada. Porque eu sei que nela estão contidas tantas verdades divinas que o homem mundano rejeita por estar sob os seus impulsos carnais.
— Aconteceu, Frederico. É. Sendo sincero mesmo, eu posso te afirmar que aconteceu. Eu até pensei em ir para outra igreja, mas me veio um desânimo inexplicável. Um cansaço de ter que performar por muito tempo. Se tornou insustentável viver sob essas obrigações que não fazem bem. Nenhum pouco, Frederico. Desculpa! Desculpa por ter confessado isso!
Os olhos do literato estavam tristes. Perdidos.
— Eu não quero te condenar.
— Mas também não vai me apoiar nessa decisão — comentou Henrique. — Você não pode me apoiar nessa decisão por causa do seu cargo na igreja. Aliás, um cargo muito importante e cobiçado.
— Que pensamento equivocado, meu amigo!
— Será?
— Completamente equivocado!
— E por que será que eu não acredito que estou equivocado nessa minha análise tão megarrealista?
— Porque a raiva nos cega.
— E quem disse que eu estou com raiva? Por acaso eu te agredi? Ou quebrei alguns objetos deste escritório?
— Não. Mas a sua raiva está se manifestando através das palavras. Palavras que denotam uma latente insatisfação com a santa grei. Eu percebo. Eu sinto e vejo a rebeldia colérica de alguém que quer se convencer de que todos os líderes evangélicos são fingidos.
— Está tão perceptível assim? — perguntou Henrique já se desarmando.
— Está — respondeu Frederico. O olhar de misericórdia. O tom de voz que transmitia muita sabedoria. — Não se deixe levar por essas vozes que querem te fazer odiar a Casa de Deus. Sim. Eu sei que existem figuras deploráveis que se intitulam ungidos por Jeová, mas não deixe de acreditar que ainda há esperança.
— Eu sei que ainda há esperança.
— Então? Por que fugir dos caminhos do Senhor?
— Não é uma fuga.
— Não. E o quê é aos seus olhos?
— Um tempo.
— Ah! Um tempo. Tipo… umas férias de Deus?
— Quase isso.
— Como assim?
— É. Umas férias de Deus. Será se é possível? Ou eu estou pedindo muito?
— Isso não existe, Henrique. Quem é que te disse que dá para tirar umas férias de Deus?
— Um conhecido meu.
— Conhecido? Um poeta? Um daqueles que você andava quando escrevia seus romances duvidosos?
— É. Um deles. E sendo muito sincero, trata-se de uma pessoa incrível. Um pouco desfocado e distante da realidade, mas… estranhamente incrível.
— Ah! Estranhamente incrível? É. A vida e as suas surpresas.
— É, Frederico. A vida e as suas surpresas.
— Então… a carreira como romancista cristão parou de vez?
— Pelo visto, sim. Parou de vez. Não porque eu tenho ódio de Deus, mas porque eu não me vejo mais escrevendo essas narrativas que seguem um padrão que me deixa sem a possibilidade de criar além. Além. Linda palavra! Além, além, além…
— Além para o bem ou para o mal?
— Para uma outra perspectiva de vida.
— Qual?
— Para a liberdade.
— Qual liberdade?
— A liberdade espiritual.
— Tipo?
— Tipo uma liberdade sem dogmas. Sem culpas. Sem medos. Sem as misérias que permeiam o homem que se vê constantemente reprovado por Deus. Eu quero ter paz. Eu quero andar na rua e me sentir livre. Abrir os meus braços e imaginar que eu sou um pássaro. Livre. Leve. Distante das amarguras dos religiosos.
— Livre? Leve? E longe de Deus?
— Não me considero longe de Deus só por causa da decisão de não frequentar uma igreja física.
— Humm! Então é essa a sua meta de vida? Viver para Deus longe dos templos?
— Não. Apenas não me envolver psicologicamente com eles. Ir à igreja esporadicamente. Sem compromisso. Sem regras absurdas. Sem choro. Só alegria. Alegria de verdade.
Alberto Ayala Filho é um escritor cristão, natural de Porto Velho. Aos 26 anos, afirma com muita satisfação, a honra que é escrever sobre Deus. Ele ama ler a Bíblia Sagrada e seus artigos são publicados em diversos sites seculares.
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