LORENZO
“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens”
Epístola aos Colossenses 3:23
Com uma sofisticação admirável, Lorenzo observou a belíssima natureza que realçava a imponência daquela casa tão festejada entre os moradores da região. Embora não fosse tão apegado ao imóvel, nutria por ele um carinho e uma sensação de nostalgia que o fazia suspirar com mais naturalidade e frequência quando ninguém estava por perto. Gostava dos momentos a sós consigo mesmo após as longas jornadas no escritório e o barulho dos papéis sendo amassados e arremessados no lixo. Envolvia-se na sinfonia dos pássaros. Óbvio que muita calma depois de um certo tempo o irritava, mas ele prezava pelo equilíbrio, e mesmo que andasse em busca do ócio produtivo ao intelectual-reflexivo, logo queria sentir o cheiro do achocolatado vindo de uma cafeteria no centro da cidade. Logo queria reencontrar seus amigos e alunos ávidos por seus conhecimentos sociológicos e experiências relatadas em um tom empolgante e humorístico. “Geralmente os locais mais afastados dos bairros agitados me remetem a um passado de uma realidade tranquila e poética. Sabe? Quando eu olho essas portas, janelas, até mesmo os gatos, parece que… na verdade, não parece. De fato, a atmosfera é diferente e então eu começo a lembrar das várias alegrias vividas nestes ambientes mais sóbrios e aconchegantes.”
Não era um silêncio total. Ele gostava disso. Muito menos, um agito insuportável. Reconhecia que estava em um cotidiano tão inspirador e ao contrário das enormes expectativas dos imediatistas. Sorriu. Os dentes brancos, a barba bonita, o perfume masculino que comprara em Paris, na França. Uma série de memórias revisitavam aquele ser que cultivava os apelos do jovem sonhador e idealista. Não. O tempo não matara seus planos e desejos. Inevitavelmente, eles adormeceram, mas ainda continuavam vivos e falantes. Expressivos ao extremo quando a vontade de ser o que ainda dava para ser o colocava contra a parede. “Por que deixei as pessoas ditarem o que eu deveria fazer ou não?” Os olhos então revelavam uma amargura que era escondida para manter a pompa de um homem hétero forte e capaz de gerenciar suas questões mais íntimas como se fosse um robô extremamente eficiente e vendável a larga escala. No entanto, reconhecia-se como um melancólico que detestava beber e fumar, mas que forçava-se a chorar como se fosse uma personagem dramática de um romance contemporâneo focado nas nuances de um hétero em busca do amor verdadeiro de uma mulher sábia e envolvente. “Saiba que os héteros não podem chorar tanto assim, hein?! Não me faça ter que ser injusta e não querer mais te escutar. Eu também me canso de tantos relatos dramáticos, sendo que não vejo o porquê de inúmeras perguntas que podem ser respondidas com uma facilidade avassaladora. Ou você está apaixonado por duas mulheres ao mesmo tempo? Porque se for isso, realmente, será complicado ficar relaxado. Um homem apaixonado por duas mulheres corre o risco de ficar louco. Ou pior. Se apaixonar por uma terceira.” Quem disse isso foi Clotilde, uma senhora ex-prostituta que encontrara na Bíblia Sagrada uma razão para viver longe do Cabaret. Conhecia Lorenzo desde quando ele era uma criança e fora uma grande amiga da mãe dele.
— Acontece que eu não sou mais como o Lorenzo que acreditava em tudo e em todos. Eu acabei amadurecendo, mas criei uma resistência em me desapegar dos velhos monstros — confessou o docente enquanto sentava-se na belíssima poltrona. — E comecei a questionar os meus achismos. Comecei a detestar me olhar no espelho e reconhecer que por anos vive sob a influência da soberba.
Clotilde o olhou com piedade. Apesar de envelhecida, mantinha suas belas feições, a maquiagem em dia e o batom alaranjado. Ela comentou em um tom educado:
— Eu também já me senti assim. E uma das piores coisa na vida é você se sentir perdido e as pessoas enxergarem apenas o teu êxito financeiro. Sendo que, uma coisa não tem nada a ver com a outra. No entanto, eis que chega a calma que somente Deus pode nos proporcionar nos momentos mais adversos. Ele vem e nos acalma. Ele vem e nos restaura. Então, resta confiar nele e descansar nos braços de um Deus tão grande e invencível. Lorenzo, eu te aconselho a não parar. A não desistir como se já fosse o fim. Afinal, as esperanças ainda estão frutificando. Não importa se os olhos físicos não as enxergam. O importante é que elas estão frutificando.
— Eu sei! — ele afirmou já com os olhos marejados e um aperto no coração. — Quando eu entrei nesta casa, dona Clotilde, eu… realmente me deparei com um novo eu. Já estou cansado de viver tantas ilusões. Tantas amarguras com mulheres que não me fazem feliz. Sendo sincero, eu é quem não posso fazê-las feliz nesta fase.
— Mas por que você diz isso? — questionou Clotilde segurança uma xícara com chá. O xale de crochê tão lindo. — Por acaso está se sentido incapaz de amar novamente?
— Incapaz de amar novamente é uma sentença muito forte na vida de um homem — respondeu Lorenzo com os olhos fixos num vaso de bronze. — O que eu posso dizer é que as mulheres não estão preparadas para um parceiro que reflete além do permitido. Consegue compreender? Nem todos os homens vão ser escravos dos ímpetos mais primitivos. Há anos eu venho flertando com os conhecimentos esotéricos, com o Catolicismo, com o Espiritismo, com o Budismo. Já fiz terapia. Já viajei para os locais mais lindos deste planeta, mas ainda assim eu resiste a buscar conhecer a Deus conforme as Sagradas Escrituras.
Clotilde se espantou. Ela nada disse. Apenas o observou envolta em seus tantos pensamentos.
— E ontem, após um dia exaustivo no escritório eu fui observar a cidade pela janela e de repente vi um homem pregando na esquina. Sério. Se fosse na época em que eu estava recém formado, com certeza teria a ousadia de zombar dele e até querer brigar com o pastor. Ontem foi diferente. Eu senti um amor. Um carinho pela alma daquele homem que pregava a Palavra de Deus com uma avidez que não se aprende nas instituições acadêmicas. Nem uma avidez fingida.
— E como você sabe que não se trata de uma avidez fingida? – perguntou Clotilde.
— Porque eu senti o toque do Espírito Santo — respondeu Lorenzo. Os olhos brilharam.
— E o que o Espírito Santo te disse, Lorenzo?
— Ele me disse para descer do escritório e ir até aquele homem que estava pregando corajosamente em um ambiente totalmente secularizado.
— Você O obedeceu?
— Com certeza!
— E o que houve?
— Eu e o seu José nos tornamos colegas.
— Que lindo! — afirmou Clotilde sorrindo.
— E hoje eu resolvi vim te visitar com uma vontade de desabafar e também contar essa experiência que eu tive ontem.
— Eu estou… perplexa.
— Eu posso imaginar. Não é algo natural, dona Clotilde. É sobrenatural. Escutar a voz do Espírito santo no meio do caos é um prenúncio de vitórias que por enquanto estão invisíveis.
— Esse relato até me faz ficar com vergonha de quem eu me tornei — admitiu Clotilde já com um olhar triste.
— Eu sei que nós somos somos falhos, mas Deus nos ama — disse Lorenzo. — A minha mãe que se casou uma única vez e reconheceu na senhora um ser humano digno de confiança. Sabe o que significa? Eu te respondo. Se uma mulher imperfeita foi capaz de querer a amizade da senhora e não te condenar como a maioria das pessoas nesta sociedade, Deus não vai te rejeitar. Ele é soberano. Ele não é como os homens que se sujam mais e mais nas suas arrogâncias.

— Verdade. Deus me ama. Ele ama os pecadores.
— Isso, dona Clotilde! Ele não condenou a mulher adúltera. Não. A perdoou e a aconselhou que não pecasse mais na área sexual. Ele teve misericórdia de Raabe.
— Eu sou como Raabe — confessou Clotilde com uma seriedade descomunal.
— Exatamente!
— Mesmo com tantos pecados, dona Clotilde, Ele perdoou as suas transgressões.
— E eu ainda estou viva. Mais um dia tendo a oportunidade de escrever uma nova história com a ajuda de Deus.
— Isso mesmo!
Ambos agora estavam na mesma sintonia. O poder do Espírito da Verdade os envolveu poderosamente naquela tarde de quarta-feira. Não queriam mais o falso esplendor que o mundanismo exacerbado oferecia apenas por alguns instantes. Agora buscavam o poder do Espírito Santo.
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