Na dúvida, comecem a rezar por Silas Malafaia

Não é confortável a situação do pastor que assumiu a missão de atacar Alexandre de Moraes, escreve o colunista Moisés Mendes

Moisés Mendes
Publicada em 28 de fevereiro de 2024 às 19:20
Na dúvida, comecem a rezar por Silas Malafaia

Silas Malafaia (à esq.) e Alexandre de Moraes (Foto: Isac Nóbrega/PR |Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O pastor Silas Malafaia organizou a aglomeração na Avenida Paulista e assumiu a tarefa de maior risco. Disse a Bolsonaro e a Michelle: façam o papel de pastores moderados porque eu irei representar o político malvado. 

E assim inverteram-se os papéis, a partir do momento em que o religioso pediu aos dois que fossem mansos e rezassem com a multidão. Pois agora chegou a hora de rezar por Malafaia.

O tempo não ajuda a diluir o que ele disse no domingo. Vão desaparecendo as possíveis atenuantes e o que fica é a agressividade com que se dirigiu ao Judiciário e principalmente ao ministro Alexandre de Moraes.

Malafaia citou Moraes 16 vezes. Acusou o ministro de ter nas mãos o sangue de um dos presos do 8 de janeiro que morreu na prisão. Citou Deus 11 vezes, o mesmo número de menções à palavra golpe.

Jesus só foi citado ao final, por apenas duas vezes, no momento da oração de encerramento. Lula foi citado quatro vezes. E o demônio e o comunismo foram esquecidos.

Erram os que sugerem que Malafaia perdeu o controle do discurso e, no improviso, passou dos limites por empolgação. Há um roteiro na sua fala, com uma linha de tempo, até com datas do que ele considera arbitrariedades ou omissões da Justiça.

Há coerência entre o núcleo da argumentação e os ataques ao ministro. Malafaia foi para a Paulista disposto a esquecer Jesus Cristo, num evento em que circulava apela avenida, em bandeiras e falas, a confusão entre cristianismo, Israel e judaísmo. 

O pastor desprezou até o demônio, para se concentrar nos ataques ao STF e a Moraes. Essa era a sua empreitada. Bolsonaro e Michelle viriam com as orações e com o apelo da anistia e ele ficaria encarregado da artilharia pesada.

O recado óbvio estava dado muito antes da aglomeração: as tropas de Deus ocuparão o lugar dos militares. E Malafaia se entregaria à missão de fazer o papel de guerreiro santo em defesa das pessoas de fé contra homens autoritários e maus.

Foi um sacrifício? Não, foi uma tentativa de posicionamento como a voz mais potente do bolsonarismo no esforço pela rearticulação da extrema direita, depois de um ano de hibernação.

O primeiro efeito na própria turma foi o abandono dos que consideraram sua fala radical. Um desprezo denunciado por ele mesmo depois do evento, quando os governadores teriam saído de fininho de perto do sujeito que anuncia a destruição dos que prenderem Bolsonaro.

O efeito externo vai sendo produzido também por reações do próprio Malafaia, que se considera perseguido pela imprensa e já se imagina sob perseguição da Receita e da Polícia Federal.

Esse é o homem de Deus que não tem medo de ser preso, como disse na Paulista, e não teme Receita e PF, como assegurou depois em vídeo nas redes sociais. 

Tanto não tem medo que citou, no fim do discurso, o trecho da Bíblia que o inspira, Hebreus 13:6, com uma certeza: “O senhor é o meu ajudador. Não temereis o que me possa fazer o homem”.

Depende do homem. Malafaia já deve ter sido alertado pelo demônio de que os trios elétricos da política são sedutores, mas também muito perigosos. E o Deus ajudador não pode tudo. Rezem pelo pastor. 

Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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