O dia em que o Bubu quase matou o capitão Carlos Lamarca!

Bubu é um cara que, quando a alma incendeia, sua voz põe-se a cantar!  Reparte o pão, serve a ceia, o Cristo Negro Iorubá!

Antônio Serpa do Amaral Filho
Publicada em 08 de setembro de 2021 às 10:40
O dia em que o Bubu quase matou o capitão Carlos Lamarca!

Bubu Johnson, quem diria, quase matou a tiros o famoso Capitão Carlos Lamarca, um dos maiores guerreiros da luta armada contra a Ditadura Militar! Foi por pouco, muito pouco!

Bubu é um cara que, quando a alma incendeia, sua voz põe-se a cantar!  Reparte o pão, serve a ceia, o Cristo Negro Iorubá!

Mas quase mandou foi bala fervendo nos córneos de um dos maiores guerreiros da América Latina, Carlos Lamarca!

Corriam os anos 60 em Porto Velho quando o Bubu foi servir ao Exército Brasileiro, ingressando na 17ª Companhia de Fronteira Acre-Rondônia – CFAR.

Enquanto Roberto Carlos, Erasmos Carlos e Vanderleia embasbacavam os brasileiros com suas doces e avançadinhas canções da Jovem Guarda, já em 1967 Carlos Lamarca criava a Vanguarda Popular Revolucionária e organizava uma galera do 4º Regimento de Infantaria para a deserção, levando consigo um arsenal de 63 fuzis e metralhadoras leves que seriam usados na pretensa derrubada do Regime Militar de 64.

Filho do Seu Norman e da Dona Elvira Johnson, Bubu era um jovem mancebo de 18 anos de idade, metido a jogador de basquete, sorridente e feliz, cabeça cheia de sonhos e de tradicional família batista! Depois de jurar a bandeira e se tornar Praça de Verdade, nosso herói logo foi iniciado em treinamento de selva, ali pra bandas do quilômetro oito da BR 364, sendo preparado para defender a pátria, a família e a propriedade a qualquer preço, inclusive com o imolar da própria vida, se preciso fosse!

Seu Norman e Dona Elvira Johnson tiveram, fora as mulheres, meia dúzia de filhos homens; o saudoso Fafá, Elvestre, Piaba, Dudu e Norman Júnior. Mas, entre eles, só um estava predestinado a se tornar um Herói Nacional: Bubu Johnson, aquele que certeiramente alojaria uma azeitona quente de Fuzil Leve Automático no corpo do guerrilheiro esquerdista, derrotando o inimigo em campo aberto, no bom combate do bem contra o mal, para o bem geral do povo e da nação brasileira, conforme constava do Manual de Treinamento que vinha fazendo a cabeça do Bubu nas fileiras amazônicas da 17ª Companhia de Fronteira Acre-Rondônia.

Mas ele não ia agir assim sozinho numa peleja com um capitão considerado bom de tiro pelo próprio exército brasileiro. Assim como Batman tinha a parceria de Robin, Bubu precisava de um parceiro de grande estirpe para executar a façanha de matar Carlos Lamarca! Eis que entra em cena o famoso Recruta Pirocão!!!

PIROCÃO E BUBU JUNTOS NA MISSÃO DE MATAR CARLOS LAMARCA! 

Menino criado sem cueca ali pelos arredores do bairro Olaria, Pirocão, vulgarmente chamado de Agnaldo Rebouças, era um menino prodígio na prova de tiro a distância. Com um FAU na mão, acertou todas as dez latas de querosene postas à distância de 40 metros dele, pipocando uma a uma sem dó nem piedade. Logo, logo, ele estaria acertando latas de tinta Suvinil de 3,5 milímetros, caindo em seguida para latas de leite ninho e leite condensado Moça, na semana seguinte! Quando ele chegou na fase da lata de leite Moça, foi declarado um talentoso e próspero atirador do exército brasileiro, potencialmente um exímio matador de esquerdistas, quase um Serial Kiler de comunas e socialistas de toda sorte! 

Brasil Ame ou Deixo-o! As praias do Brasil ensolaradas, o chão do meu país se elevou! A mão de Deus abençoou, mulher que nasce aqui tem muito mais amor! Eu Te Amo Meu Brasil, Eu Te Amo, Meu Coração é verde, amarelo e branco, azul anil! Eu Te Amo, Meu Brasil, Eu Te Amo, Ninguém Segura a Juventude do Brasil! Deus acima de tudo! Entoavam os patriotas de ontem, e parece que hoje também! Mas é só uma Coincidência, viu gente! 

Só sei que, em meio a essa onda nativista verde-amarelo, Jesuá Johnson, como já estava na fase de acertar caixas de fósforo da marca Olho à distância de 40 metros, aguardava todo prosa a promoção de Pirocão ao cargo de Franco Atirador Zero Dois para que juntos pudessem levar pra frente e dar cabo à gloriosa missão de duelar frente a frente com a encarnação do mal para alegria dos nacionais que viviam naquele momento histórico.  

Àquela altura do campeonato, inocentes, puros e bestas, nem Bubu nem Pirocão sabiam exatamente quem era o tal Carlos Lamarca, mas tinham recebido do exército, diariamente, aula de Educação Moral e Cívica mostrando que esse alvo humano era comunista e comia criancinhas, além de carregar consigo o Ouro de Moscou, coisa que Bubu e Pirocão ficaram curiosos pra ver! Eles sabiam, no entanto, que tinham liberdade para matar o homem que lutava pela liberdade e democracia! Na verdade, o país já vivia em liberdade! Não entendiam porque alguém queria mais liberdade, sendo que eles tinham autorização e liberdade para matar esse tal libertário. Isso era um pouco confuso para dois provincianos rapazes da amazônia distante, mas, cada macaco no seu galho, eles iriam fazer o papel deles, matar Carlos Lamarca e até quem sabe o próprio Che Guevara, se o Argentino colocasse os pés por aqui sem autorização da Anvisa. 

Bubu e Pirocão foram elevados à categoria de Agentes Secretos do Exército Brasileiro e em seguida foram deslocados para um acampamento na margem de cá do Rio Machado, onde tinha a famosa Balsa de Vila Rondônia. Informações ultra-secretas davam conta de que Lamarca viria por ali e tentaria cruzar o rio em cima da balsa. Coitado do capitão! Não teria a mínima chance, pois estaria sob o fogo cruzado e certeiro de dois Snaiper posicionados a bombordo e a oestebordo da sôfrega balsa puxada a corda.  Ficaram lá seis meses acampados, treinando diariamente, 10 horas por dias!  

Eis que chega o dia fatídico! Um telegrama do Serviço Nacional de Informação, criado pelo general Golbery do Couto e Silva, dava conta de que o alvo (Capitão Lamarca) passaria pela balsa de Vila de Rondônia exatamente às 18h30, disfarçado de peão de boiadeiro, portando uma guampa de tomar tereré e um berrante de chamar a boiada. Viria a Rondônia para criar a nova frente de guerrilha da Vanguarda Popular Revolucionária na Amazônia. 

A tensão tomou conta de todos, menos do Bubu e do Pirocão, que já de manhã tinham tomado chá de capim santo, um santo remédio para os nervos dos nossos heróis atiradores de primeira grandeza! 

À medida que a tarde vai caindo, os franco-atiradores se posicionam com efetividade, até porque nessa altura do campeonato eles já estavam acertando latinha de vick vaporub a cem metros de distância.  

O SNI tava certo! Às 18 horas e 20 minutos a balsa começara a se deslocar lentamente da margem de lá rumo à margem de cá do rio Machado. Há de fato um velho caminhão Ford e mais dois homens a bordo. Um deles portava mesmo um Berrante!  No lusco-fusco da tarde parecia até mesmo uma arma... 

A Central de Inteligência do Exército monitora passo a passo o deslocamento da balsa. Bubu e Pirocão estão com o alvo na luneta e dedo no gatilho só esperando a ordem de mandar bala! 

Às 18h29, faltando apenas um minuto para o desfecho fatídico e histórico, o alvo completamente sob a mira dos impassíveis franco-atiradores, com o Bubu quase pedindo uma toalha pra limpar o suor do rosto, veio a Contra-Ordem: ABORTAR!!  

O suposto telegrama do SNI era uma Mensagem Fake, plantada por homens do serviço secreto russo a serviço de Moscou!   

O CAPITÃO LAMARCA NA VERDADE ESTAVA NO SERTÃO DA BAHIA, A MAIS DE 4 MIL QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA DE RONDÔNIA! 

Pirocão deu baixa e foi ser funcionário público! 

Bubu Johnson deu baixa e dedicou-se a estudar Educação Física em Mato Grosso do Sul, de onde voltou e foi tomar uma na Taba do Cacique e no Bar do Boliva com o Norman Johnson, e nunca mais pararam de tocar e de cantar!   

A missão de matar Carlos Lamarca é água passada que não move moinho!! 

A propósito. Das tantas músicas da MPB que o Bubu já ouviu, uma quadrinha ainda ressoa no ouvido dele de vez em quando: 

Na boiada já fui boi 

Mas um dia me montei 

Não por um motivo meu 

Ou de quem comigo houvesse 

Que qualquer querer tivesse 

Porém por necessidade 

Do dono de uma boiada 

Cujo vaqueiro morreu 

E assim Bubu trocou o Fuzil pelo Canto e Viola.... 

 

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Comentários

  • 1
    image
    edgard feitosa 08/09/2021

    Sugiro que o autor crie uma crônica com outros "heróis macunaímicos", que nos desvenda os maiores enigmas de Rondônia: 1) quem tocou fogo no batuque de Santa Barbara; 2) QUEM MATOU O TENENTE FERNANDO???? 3) ONDE ANDA O JORNALISTA INACIO MENDES???

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