O FANTASMA DO PODE SER A ÚLTIMA VEZ

Ah, não! Quero isso, não, na minha vida. De jeito nenhum. Viver assombrado pelo fantasma do pode ser a última vez

Fonte: José Danilo Rangel/Foto: Beyzaa Yurtkuran / pexels.com - Publicada em 24 de setembro de 2026 às 13:48

O FANTASMA DO PODE SER A ÚLTIMA VEZ

Se a gente for mesmo levar a sério a ideia de que toda vez pode ser a última, tem que se preparar. Pois, na mesma hora, a vida vai se tornar um dramalhão insuportável. Todo papo, por mais fútil, todo contato, por mais inútil, todo cafezinho depois do almoço vai ganhar, de repente, uma importância grande.

Podendo ser a última, até a figurinha no WhatsApp demandaria um cuidado desmedido antes de ser enviada.

Imagine viver com isso na cabeça, pode ser o último, pode ser o último, pode ser o último. Imagine o peso que teriam as palavras trocadas às pressas no supermercado, as mensagens, os áudios. Imagine fazer tudo e qualquer coisa pensando que pode ser a última vez. 

Como seria ver um filme junto, que talvez fosse o último? O inferno que seria escolher esse filme. Já passamos horas e horas maratonando menus de filmes sem pensar que o próximo pode ser o último, imagine pensando.

Como seria fazer as compras, talvez as últimas? Como seria limpar a cozinha, talvez pela última vez? Sair para o trabalho, jantar, dormir, acordar… Como seria conviver na iminência do adeus? Pode ser agora, pode ser agora, pode ser agora…

Se bem que o efeito podia ser outro, também. Ah, já vai mesmo. Vou nem me apegar. Quando o meu irmão me emprestou o Playstation 4, tomei o cuidado de não gostar demais. Pra não sofrer muito depois. Fico pensando, viver prevendo a última vez, seria como conviver com pessoas emprestadas. Tendo que devolver a qualquer momento.

Nenhum abraço é o último abraço — até que seja, nenhuma conversa é a última conversa — até que seja, e não tem como escapar. A não ser que a gente goste menos, que se apegue menos, a não ser que a gente ame menos. Não tem jeito.

E que porcaria seria, hein? Tratar por medo de perder. Medo a gente perde, não? E se perder? Fico pensando. O amor não devia ser suficiente? Não devia fazer a gente tratar bem, pelo menos, as pessoas que ama?

Ei, esperaí, preciso dizer que te amo agora, nesse momento, vai que tu morra...

Ah, não! Quero isso, não, na minha vida. De jeito nenhum. Viver assombrado pelo fantasma do pode ser a última vez.

O FANTASMA DO PODE SER A ÚLTIMA VEZ

Ah, não! Quero isso, não, na minha vida. De jeito nenhum. Viver assombrado pelo fantasma do pode ser a última vez

José Danilo Rangel/Foto: Beyzaa Yurtkuran / pexels.com
Publicada em 24 de setembro de 2026 às 13:48
O FANTASMA DO PODE SER A ÚLTIMA VEZ

Se a gente for mesmo levar a sério a ideia de que toda vez pode ser a última, tem que se preparar. Pois, na mesma hora, a vida vai se tornar um dramalhão insuportável. Todo papo, por mais fútil, todo contato, por mais inútil, todo cafezinho depois do almoço vai ganhar, de repente, uma importância grande.

Podendo ser a última, até a figurinha no WhatsApp demandaria um cuidado desmedido antes de ser enviada.

Imagine viver com isso na cabeça, pode ser o último, pode ser o último, pode ser o último. Imagine o peso que teriam as palavras trocadas às pressas no supermercado, as mensagens, os áudios. Imagine fazer tudo e qualquer coisa pensando que pode ser a última vez. 

Como seria ver um filme junto, que talvez fosse o último? O inferno que seria escolher esse filme. Já passamos horas e horas maratonando menus de filmes sem pensar que o próximo pode ser o último, imagine pensando.

Como seria fazer as compras, talvez as últimas? Como seria limpar a cozinha, talvez pela última vez? Sair para o trabalho, jantar, dormir, acordar… Como seria conviver na iminência do adeus? Pode ser agora, pode ser agora, pode ser agora…

Se bem que o efeito podia ser outro, também. Ah, já vai mesmo. Vou nem me apegar. Quando o meu irmão me emprestou o Playstation 4, tomei o cuidado de não gostar demais. Pra não sofrer muito depois. Fico pensando, viver prevendo a última vez, seria como conviver com pessoas emprestadas. Tendo que devolver a qualquer momento.

Nenhum abraço é o último abraço — até que seja, nenhuma conversa é a última conversa — até que seja, e não tem como escapar. A não ser que a gente goste menos, que se apegue menos, a não ser que a gente ame menos. Não tem jeito.

E que porcaria seria, hein? Tratar por medo de perder. Medo a gente perde, não? E se perder? Fico pensando. O amor não devia ser suficiente? Não devia fazer a gente tratar bem, pelo menos, as pessoas que ama?

Ei, esperaí, preciso dizer que te amo agora, nesse momento, vai que tu morra...

Ah, não! Quero isso, não, na minha vida. De jeito nenhum. Viver assombrado pelo fantasma do pode ser a última vez.

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