Terras raras: soberania em risco e o dever de reagir

Estamos diante de um processo que pode, sim, ser interpretado como uma forma contemporânea de colonização econômica

Fonte: Francis Bogossian - Publicada em 23 de abril de 2026 às 19:17

Terras raras: soberania em risco e o dever de reagir

Mina de terras raras (Foto: Divulgação)

A recente aquisição da mineradora brasileira Serra Verde por uma empresa com participação estatal dos Estados Unidos — a USA Rare Earth — não é apenas uma operação empresarial. Trata-se de um movimento geopolítico de grande envergadura, inserido na disputa global por minerais estratégicos que sustentam a economia do século XXI. O episódio exige reflexão e, sobretudo, ação.

As chamadas “terras raras” — um conjunto de elementos químicos essenciais à produção de ímãs permanentes, semicondutores, turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de defesa — tornaram-se o novo “petróleo” da era digital. Hoje, a China domina a cadeia global, respondendo pela maior parte do processamento e da produção de ímãs de alta performance. Em resposta, os Estados Unidos vêm estruturando uma estratégia agressiva de reindustrialização e segurança nacional, na qual o controle dessas cadeias produtivas é central.

É nesse contexto que se insere a aquisição da Serra Verde. Localizada em Goiás, a mina de Pela Ema é considerada um ativo singular: poderá responder por mais da metade da produção mundial de terras raras pesadas fora da Ásia até 2027. Ao assumir o controle desse ativo, a empresa americana — com apoio direto de instrumentos financeiros do governo dos EUA, como a Development Finance Corporation — passa a integrar uma cadeia completa: da mineração à fabricação de ímãs.

Não se trata, portanto, de investimento estrangeiro neutro. Trata-se de política industrial externa daquele país que atenta contra a Nova Indústria Brasil proposta pelo governo brasileiro que propugna exatamente por uma maior independência. O financiamento estatal americano, os contratos de longo prazo com empresas de propósito específico capitalizadas pelo governo dos EUA e a reorganização dos fluxos de exportação evidenciam uma estratégia clara: deslocar o eixo de dependência tecnológica da China para uma cadeia controlada pelo Ocidente — ainda que ancorada em recursos naturais brasileiros.

O Brasil, nesse arranjo, corre o risco de permanecer na posição histórica de mero fornecedor de matéria-prima. Exporta-se o mineral bruto ou parcialmente beneficiado, enquanto o valor agregado — tecnológico, industrial e estratégico — é apropriado no exterior. É a repetição, em pleno século XXI, de um padrão de inserção subordinada que remonta ao ciclo colonial.

A analogia não é retórica. Quando uma potência estrangeira mobiliza seu aparato estatal para garantir acesso privilegiado a recursos estratégicos em outro país, condicionando fluxos produtivos e capturando etapas de maior valor, estamos diante de um processo que pode, sim, ser interpretado como uma forma contemporânea de colonização econômica.

O precedente histórico brasileiro reforça a gravidade da situação. A privatização da Companhia Vale do Rio Doce, ainda hoje objeto de debate, já evidenciava os riscos de perda de controle sobre ativos minerais estratégicos. No caso das terras raras, porém, o problema é ainda mais sensível: não se trata apenas de mineração, mas do domínio de tecnologias críticas para a transição energética, a indústria de defesa e a soberania digital.

Diante desse cenário, o silêncio não é uma opção.

O Clube de Engenharia do Brasil, fiel à sua tradição histórica de defesa do desenvolvimento nacional, deve se posicionar de forma clara e firme e exigir da Agencia Nacional de Mineração uma atitude em defesa do estado brasileiro. É preciso exigir do governo brasileiro uma política robusta de proteção e valorização de seus minerais estratégicos.

Algumas medidas se impõem:

* Revisão do marco regulatório da mineração, com tratamento diferenciado para minerais críticos e estratégicos;

* Condicionamento de investimentos estrangeiros à internalização de etapas industriais no país, incluindo processamento e fabricação de ímãs;

* Participação acionária do Estado brasileiro ou de fundos soberanos em ativos estratégicos;

* Fortalecimento de empresas nacionais e estímulo à formação de cadeias produtivas completas no território brasileiro;

* Articulação entre universidades, centros de pesquisa e indústria, para desenvolver tecnologias próprias de separação e aplicação de terras raras.

O Brasil dispõe de competência científica — basta olhar para o sistema universitário e centros como a UFRJ e o CETEM — e de base mineral abundante. O que falta é decisão política para transformar esses ativos em poder econômico e soberania tecnológica.

A disputa global por terras raras não é apenas econômica; é civilizatória. Define quem liderará a próxima revolução industrial e quem ficará restrito ao papel de fornecedor periférico.

O momento exige coragem.

Ou o Brasil assume o controle de seu destino estratégico, ou continuará exportando futuro e importando dependência.

Francis Bogossian - presidente do CEB

Fernando Peregrino - vice - presidente do CEB

Francis Bogossian

Francis Bogossian preside o Clube de Engenharia – Brasil e o Instituto Brasileiro de Estudos Políticos; foi professor da UFRJ e da UVA; preside o Conselho de Administração das empresas Geomecânica S/A e Geocoba; ex-presidente da Academia Nacional de Engenharia; membro do Conselho Consultivo da Casa Rui Barbosa; ex presidente interino e vice-presidente do CREA RJ.

Terras raras: soberania em risco e o dever de reagir

Estamos diante de um processo que pode, sim, ser interpretado como uma forma contemporânea de colonização econômica

Francis Bogossian
Publicada em 23 de abril de 2026 às 19:17
Terras raras: soberania em risco e o dever de reagir

Mina de terras raras (Foto: Divulgação)

A recente aquisição da mineradora brasileira Serra Verde por uma empresa com participação estatal dos Estados Unidos — a USA Rare Earth — não é apenas uma operação empresarial. Trata-se de um movimento geopolítico de grande envergadura, inserido na disputa global por minerais estratégicos que sustentam a economia do século XXI. O episódio exige reflexão e, sobretudo, ação.

As chamadas “terras raras” — um conjunto de elementos químicos essenciais à produção de ímãs permanentes, semicondutores, turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de defesa — tornaram-se o novo “petróleo” da era digital. Hoje, a China domina a cadeia global, respondendo pela maior parte do processamento e da produção de ímãs de alta performance. Em resposta, os Estados Unidos vêm estruturando uma estratégia agressiva de reindustrialização e segurança nacional, na qual o controle dessas cadeias produtivas é central.

É nesse contexto que se insere a aquisição da Serra Verde. Localizada em Goiás, a mina de Pela Ema é considerada um ativo singular: poderá responder por mais da metade da produção mundial de terras raras pesadas fora da Ásia até 2027. Ao assumir o controle desse ativo, a empresa americana — com apoio direto de instrumentos financeiros do governo dos EUA, como a Development Finance Corporation — passa a integrar uma cadeia completa: da mineração à fabricação de ímãs.

Não se trata, portanto, de investimento estrangeiro neutro. Trata-se de política industrial externa daquele país que atenta contra a Nova Indústria Brasil proposta pelo governo brasileiro que propugna exatamente por uma maior independência. O financiamento estatal americano, os contratos de longo prazo com empresas de propósito específico capitalizadas pelo governo dos EUA e a reorganização dos fluxos de exportação evidenciam uma estratégia clara: deslocar o eixo de dependência tecnológica da China para uma cadeia controlada pelo Ocidente — ainda que ancorada em recursos naturais brasileiros.

O Brasil, nesse arranjo, corre o risco de permanecer na posição histórica de mero fornecedor de matéria-prima. Exporta-se o mineral bruto ou parcialmente beneficiado, enquanto o valor agregado — tecnológico, industrial e estratégico — é apropriado no exterior. É a repetição, em pleno século XXI, de um padrão de inserção subordinada que remonta ao ciclo colonial.

A analogia não é retórica. Quando uma potência estrangeira mobiliza seu aparato estatal para garantir acesso privilegiado a recursos estratégicos em outro país, condicionando fluxos produtivos e capturando etapas de maior valor, estamos diante de um processo que pode, sim, ser interpretado como uma forma contemporânea de colonização econômica.

O precedente histórico brasileiro reforça a gravidade da situação. A privatização da Companhia Vale do Rio Doce, ainda hoje objeto de debate, já evidenciava os riscos de perda de controle sobre ativos minerais estratégicos. No caso das terras raras, porém, o problema é ainda mais sensível: não se trata apenas de mineração, mas do domínio de tecnologias críticas para a transição energética, a indústria de defesa e a soberania digital.

Diante desse cenário, o silêncio não é uma opção.

O Clube de Engenharia do Brasil, fiel à sua tradição histórica de defesa do desenvolvimento nacional, deve se posicionar de forma clara e firme e exigir da Agencia Nacional de Mineração uma atitude em defesa do estado brasileiro. É preciso exigir do governo brasileiro uma política robusta de proteção e valorização de seus minerais estratégicos.

Algumas medidas se impõem:

* Revisão do marco regulatório da mineração, com tratamento diferenciado para minerais críticos e estratégicos;

* Condicionamento de investimentos estrangeiros à internalização de etapas industriais no país, incluindo processamento e fabricação de ímãs;

* Participação acionária do Estado brasileiro ou de fundos soberanos em ativos estratégicos;

* Fortalecimento de empresas nacionais e estímulo à formação de cadeias produtivas completas no território brasileiro;

* Articulação entre universidades, centros de pesquisa e indústria, para desenvolver tecnologias próprias de separação e aplicação de terras raras.

O Brasil dispõe de competência científica — basta olhar para o sistema universitário e centros como a UFRJ e o CETEM — e de base mineral abundante. O que falta é decisão política para transformar esses ativos em poder econômico e soberania tecnológica.

A disputa global por terras raras não é apenas econômica; é civilizatória. Define quem liderará a próxima revolução industrial e quem ficará restrito ao papel de fornecedor periférico.

O momento exige coragem.

Ou o Brasil assume o controle de seu destino estratégico, ou continuará exportando futuro e importando dependência.

Francis Bogossian - presidente do CEB

Fernando Peregrino - vice - presidente do CEB

Francis Bogossian

Francis Bogossian preside o Clube de Engenharia – Brasil e o Instituto Brasileiro de Estudos Políticos; foi professor da UFRJ e da UVA; preside o Conselho de Administração das empresas Geomecânica S/A e Geocoba; ex-presidente da Academia Nacional de Engenharia; membro do Conselho Consultivo da Casa Rui Barbosa; ex presidente interino e vice-presidente do CREA RJ.

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