Estudo aponta impactos da BR-319 na Amazônia
A região cortada pela rodovia concentra a maior diversidade de espécies do planeta. Abrir uma nova frente de desmatamento ali significa acelerar a devastação em um dos lugares mais valiosos para o equilíbrio climático e ecológico global
Mapa traz a concentração de espécies (anfíbios, pássaros, mamíferos, répteis, crustáceos e peixes de água doce) por 100 km² no planeta. Dados: International Union for Conservation of Nature. Mapa: Carolina Passos/InfoAmazonia Crédito: Carolina Passos / InfoAmazonia
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou o mapa-múndi comemorativo “Riqueza de Espécies 2025” no início deste mês. Os dados mostram que a região mais biodiversa do planeta é a Amazônia. Nenhum outro lugar do mundo tem tantas espécies como o bioma que compreende quase metade do nosso país.
O IBGE inverteu o que geralmente conhecemos como mapa-múndi justamente para a Amazônia e o Brasil ficarem no centro da imagem. Até aí, só essa mudança de padrão, já renderia horas de discussão geopolítica. Mas nós — eu e Carolina Passos, especialista em visualização de dados aqui na InfoAmazonia — queríamos dar um zoom na Amazônia brasileira.
Isso porque bati o olho na região mais biodiversa do mapa do IBGE e percebi que ela coincide exatamente com a última frente sob pressão de desmatamento na região. Faz sentido: onde ainda há floresta em pé, há mais interesse em desmatar, mas também é onde ainda sobrevivem mais espécies.
Isso fica bem claro nas entrevistas que a repórter Jullie Pereira fez na reportagem sobre as IBAS, áreas estratégicas para a preservação de aves, na Amazônia. Um dos pesquisadores explica justamente a importância de uma floresta preservada:
“Desmatar ou degradar a floresta significa matar os bichos que vivem lá dentro, diretamente ou indiretamente. Uma mata toda aberta ou fragmentada em pedaços pequenos, cercada de pasto, é muito ruim do ponto de vista da sobrevivência desses bichos. É como uma morte anunciada”, disse à InfoAmazonia o pesquisador Mario Cohen Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
Então chego ao ponto a que realmente quero chegar neste texto: a BR-319. A rodovia foi construída durante a ditadura militar, em meio ao projeto de ocupação da Amazônia, mas acabou abandonada nos anos 1990 por falta de viabilidade econômica. Nos últimos anos, a reconstrução da estrada voltou a ganhar força — especialmente no governo Jair Bolsonaro — impulsionada por interesses do agronegócio, mineração, madeireiras e do setor de petróleo e gás.
Pois bem. Conhecendo mais ou menos o traçado da estrada, eu já imaginava que ela atravessaria uma das regiões mais ricas daquele mapa. Eu e Carolina Passos aproveitamos para sobrepor o traçado da rodovia aos dados de biodiversidade e também ao que já foi desmatado na Amazônia…
Bingo!
O mapa mostra o que eu já imaginava.
A BR-319 atravessa uma das regiões mais biodiversas do planeta e uma das últimas grandes áreas contínuas de floresta intacta da Amazônia brasileira. Por isso, a estrada pode desencadear impactos irreversíveis: a infraestrutura rodoviária estimula a ocupação desordenada do território, impulsionando o desmatamento e a degradação ambiental. Mesmo quando a vegetação se regenera, a floresta dificilmente recupera as características originais que tinha antes.
Em termos práticos, abrir uma nova frente de ocupação com a BR-319 significa pressionar justamente a área com a maior concentração de espécies da Terra. Em um planeta que já enfrenta uma crise de extinção, com centenas de milhares de espécies ameaçadas, isso não é um detalhe.
De todas as regiões do mundo, esta talvez seja a que mais precisa ser preservada. Ponto final.
Crédito: Fábio Bispo*
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