Novela Cristã - Capítulo 2
E se eu voltasse a fumar? — indagou ele em voz alta e o seu amigo editor apenas deu um leve sorriso de surpresa pelo teor da pergunta
Enclausurado nos próprios pensamentos e achismos nocivos? Com certeza! Totalmente entregue à tristeza existencial de um literato religioso cansado da vil superficialidade tão valorizada na sociedade atual. Olhou para uma cartela de cigarros e a nostalgia da época em que esteve imerso na literatura secular o tomou de uma maneira assustadora. Naquela época, ele se lançara sem pudores no fumo e no consumo de álcool. Achava que era imbatível e irresistível aos olhos do público feminino.
— E se eu voltasse a fumar? — indagou ele em voz alta e o seu amigo editor apenas deu um leve sorriso de surpresa pelo teor da pergunta. — E se eu voltasse a ser aquele homem que se apaixonava por diversas mulheres ao longo do dia?
— Se você voltasse ao vômito, Gaspar, seria uma decadência espiritual lamentável e totalmente midiática para os seus críticos que sobrevivem do jornalismo sensacionalista neste país tropical. Você conhece como funciona o jogo!
Gaspar refletiu por alguns instantes na resposta que Fernandez havia lhe dado com muita rapidez e segurança. Comentou:
— É verdade, meu amigo! Seria lamentável. Seria uma narrativa totalmente triste e maravilhosa para o diabo.
— Então? Por que me perguntas se já sabes qual será a resposta, Gaspar?
— Porque indagar é um exercício de humildade para quem escreve. Uma vez recebi este conselho de um escritor e filósofo francês. Não sabemos tudo, ele me dizia enquanto pintava um quadro no seu elegantíssimo apartamento em Paris. Pergunte e viva como um constante aprendiz, repetia ele nos encontros literários que tínhamos perto da Torre Eiffel. Esplêndidas lembranças do teacher René!
— Não caia nas conversas da sua irmã, Gaspar — aconselhou Fernandez segurando um exemplar do livro O peregrino, de John Bunyan. — Ela quer te desestabilizar e acabar com a sua carreira na literatura cristã.
O romancista riu sem dar tantos créditos à fala do amigo.
— Isso é impossível, Fernandez! A Amélia não tem todo esse poder.
Com mais sagacidade na vida, Fernandez assumiu um ar de seriedade e afirmou:
— O que está nela irá ter tal capacidade se você esmorecer no meio do caminho. Nunca duvide das artimanhas que o diabo tece a partir das ações de uma mulher magoada. A vingança feminina é ardilosa e muitas vezes, Gaspar, mortífera.
Ao escutar tais palavras, Gaspar não pôde evitar o susto. Porém, logo rechaçou a possibilidade de se estremecer diante das maldades da irmã mais velha.
— Ela não vai conseguir me destruir, pois eu estou com Deus. O Espírito Santo está em mim. Não há como ela me derrotar, meu amigo.
— Claro! O Espírito Santo está te auxiliando na missão, mas…
Respirou fundo. Franziu a testa branca e continuou:
— Não ache que o inimigo é sempre ridículo e previsível. É um conselho espiritual que te dou com muito temor no meu coração.
— Eu sei que se trata de um conselho relevante — disse Gaspar em um tom afetuoso. — Mas agora eu não quero me preocupar excessivamente com as loucuras da Amélia. Prefiro me dedicar aos preparativos do meu noivado. Esqueceu? Eu e a Matilde vamos nos casar, Fernandez.
Casa misteriosa em um bairro muito calmo
As velas azuis estavam acesas e madame Juliana fumava um charuto perto da janela que revelava um jardim descuidado, exótico e intrigante para os mais observadores. Na poltrona, Amélia, arrumada, a bolsa de grife e os óculos escuros que lhe davam uma aparência de vilã. O batom roxo e as pernas inquietas.
— Qual o motivo da sua nobre visita? — indagou a dona da casa.
— Nós já conversamos em outros encontros, madame Juliana. Esqueceu?
— Não. Não esqueci. Ainda mais de uma figura tão chique e cheirosa.
— Agradeço pelos elogios! Acontece que eu ainda não consigo acreditar que uma mulher tão conhecedora das forças espirituais se recuse a me ajudar a ser feliz.
— Eu não te empato de ser feliz.
— Será? — indagou Amélia tirando os óculos escuros e demonstrando grande decepção com a dona da casa. — Tantas conversas reveladoras. Tantas lágrimas de uma irmã que está vendo o próprio irmão sendo enganado por uma interesseira. Não é possível que o meu drama não comove o seu coração.
— Não é tão simples assim — comentou Juliana. — Não seja tão imatura.
— Se o problema for dinheiro, pode me dizer qual é o valor. Comigo você só vai ganhar. Eu não sou um poço de misérias. Diga-me qual é o preço do seu serviço?
Madame Juliana parou de fumar o charuto e nada respondeu por alguns instantes. No olhar dela, havia um deboche perceptível e lapidado ao longo das décadas.
— Sabe? O grande problema das pessoas é julgar pela capa. Muito, muito lamentável e previsível.
— Do que você está falando? — perguntou Amélia não entendendo os rumos da conversa.
— Complicadíssimo de entender? — debochou madame Juliana e logo deu uma risada. — Por favor! Não é tão difícil de entender.
— Já sei, já sei — se apressou Amélia no seu desespero cego. — Um milhão de reais, né?! Eu consigo. É mais do que eu havia planejado pagar, mas todo o esforço para impedir a desgraça acontecer valerá a pena. Eu faço qualquer sacrifício!
— É sério isso mesmo, Amélia? — quis saber a cartomante olhando com desdém para a cliente.
— O quê? A minha revolta? As minhas sinceras preocupações em relação ao meu irmão querido?
— Aceite a verdade, Amélia!
Tensão entre as duas. De repente, os olhos de Amélia ficaram marejados e era gritante o ódio que a dominava.
— Deus não vai deixar ninguém separar aquele casal, sua invejosa!
— Deus? Como assim Deus, madame Juliana? Eu vim na casa de uma feiticeira ou de uma irmã evangélica que entoa os hinos da harpa?
A cliente estava indignada.
— Você veio na casa de uma feiticeira, Amélia. Acertou! Porém, eu não vou ser otária de me atrever a satisfazer os seus caprichos mais ridículos e reprováveis. Escutou? Ou quer que eu desenhe para a dondoca em uma folha de papel?
— Por que isso agora? Hein? Ela pagou mais? Confessa, madame Juliana!
— Ninguém pagou mais. Os dois nunca serão destruídos por você.
— Já sei. Você não é feiticeira porcaria nenhuma, sua charlatã!
— Olha! Cuidado, hein?!
— Cuidado com quem? Com você, sua picareta?
— É. Cuidado comigo, barraqueira desgraçada!
— Acha mesmo que nessa guerra sou eu quem vai sair perdendo, nojenta?
— Eu tenho certeza. Eu leio cartas sim. Cartas de Tarot. Mas eu não sou uma invejosa como você que se propõe a arruinar a vida das outras pessoas por pura incapacidade de encontrar o caminho da felicidade que existe. Ele existe. E você, Amélia, poderia ser muito feliz. Mas não. Você escolheu ficar imersa na cólera.
— Escolhi!
— Lamentável!
— Lamentável, sua feia?
— Lamentável demais, desgraçada!
— Lamentável é você, sua charlatã! Sabe? Você não tem poder porcaria nenhuma!
— Veremos — ameaçou madame Juliana com uma gargalhada assustadora e pegou uma varinha mágica. —A feiticeira tem poder, sua feia! Aceite o destino e será melhor. Seu irmão milionário e a empregada irão se casar, serão felizes e é o destino irrefutável, criatura invejosa e lamentável!
— Pena que você não estará viva para se orgulhar de tal previsão — disse Amélia com muito ódio e pegou um revólver que estava na sua bolsa. Sorriu maliciosamente na direção da feiticeira.

— Larga isso, sua louca! — gritou madame Juliana e soltou a vara mágica no chão.
— Charlatããããããããããããããã! — esbravejou Amélia e apertou o gatilho do revólver.
Alberto Ayala Filho é um escritor evangélico e colunista em diversos sites de Rondônia. Também é ficcionista cristão. Aos 26 anos de idade, exerce um ministério na literatura cristã e enfatiza que a Bíblia é o livro mais sábio da civilização humana.
© 2026 Alberto Ayala Filho. Todos os direitos reservados.
MPRO promove palestras sobre ética e integridade
Atividades abordaram a responsabilidade individual, as escolhas cotidianas e a construção de ambientes pautados pelo respeito
MPRO homenageia integrantes com Medalhas de Bons Serviços
Reconhecimento celebra a trajetória de membros, servidores e servidoras por dez, 20, 30 e 40 anos de atuação na instituição




Comentários
Seja o primeiro a comentar
Envie Comentários utilizando sua conta do Facebook