O horror da fome e a indiferença dos homens

É horrível que líderes eleitos em regimes democráticos, em sociedades políticas organizadas com a finalidade de promover o bem comum dos seus membros, não se dignem a enfrentá-la com vigor

Rogério Baptistini Mendes
Publicada em 11 de junho de 2021 às 10:32
O horror da fome e a indiferença dos homens

Fome é mais do que uma sensação. É uma desgraça que aflige os humanos que não tem o que comer, ingerem alimentos insuficientes para suprir as necessidades da vida. O resultado dela se mede socialmente e apenas os insensíveis não se indignam pelo fato de viver entre famélicos. Quando estes governam a sociedade, é mau sinal.

Na literatura, a fome foi retratada pelo escritor norueguês Knut Hamsun, em livro publicado no ano de 1890: Fome. Na obra do autor, agraciado com o prêmio Nobel em 1920, um jovem escritor em condições de miserabilidade na Europa da segunda revolução industrial, munido de um toco de lápis, escreve crônicas para jornais para sobreviver nas ruas, sem teto e desnutrido. Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos, publicado em 1938, retrata a fome e a miséria no contexto do sertão nordestino, mostrando uma família pobre em retiro forçado pela seca e suas consequências.

A fome é um problema tão grave que é tratada desde a metade do século passado pela Organização das Nações Unidas, que criou em sua primeira sessão, no ano de 1945, a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). Esta publica o Indicador de Segurança Alimentar, no qual o Brasil, somente neste século XXI, durante um curto período entre 2013 e 2017, deixou de figurar entre os países com mais de 5 % da população padecendo de insegurança alimentar grave, a fome. O que causa desconforto é que, entre os anos de 1930 até 1980 assombramos o mundo, construindo por sobre a herança colonial e escravocrata uma sociedade moderna, urbana e industrial; porém, excludente e desigual. Um capitalismo de vendedores, sob um arremedo de democracia política.

Na década de 1950, a FAO foi presidida pelo brasileiro Josué de Castro. Este, apesar de formado em medicina, se destacou por pesquisas sobre a fome e suas consequências. Com um dos seus livros, Geografia da fome, lançado em 1946, ajudou a combater preconceitos malthusianos que opunham quantidade de pessoas a oferta de recursos. Mostrou que interesses políticos e concentração de riquezas são as verdadeiras causas do flagelo alimentar que condena indivíduos e sociedades. Foi sua a ideia da criação de uma reserva internacional contra a fome. Seus direitos políticos foram cassados pelo Ato Institucional nº 1, editado pela junta militar que assumiu o governo brasileiro em 1964, mas não foi capaz de vencer a miséria que condenava o próprio povo.

Hoje, com a pandemia da covid-19, o cenário da fome é desalentador. O relatório Estado da segurança alimentar e nutrição no mundo (SOFI, na sigla em inglês), informa que na América Latina e Caribe são 47,7 milhões de pessoas atingidas pela fome. Até 2030, na América do Sul, a estimativa é que a fome atinja cerca de 36 milhões de pessoas. No Brasil, de acordo com pesquisa do núcleo Food for Justice, do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Freie Universität Berlin (IELA-FUB), da Alemanha, a insegurança alimentar atinge cerca 59,4% dos domicílios brasileiros, sendo que em 15% deles ela é grave, ou seja, conforme a classificação do IBGE: há uma ruptura nos padrões de alimentação resultantes da falta de alimentação entre todos os moradores. Há fome.

Mais do que objeto para a obra de literatos, a fome é uma calamidade que acomete as sociedades no Norte e no Sul, desenvolvidas e subdesenvolvidas. É escandaloso que autoridades públicas e donos do dinheiro não se manifestem em seu combate. É horrível que líderes eleitos em regimes democráticos, em sociedades políticas organizadas com a finalidade de promover o bem comum dos seus membros, não se dignem a enfrentá-la com vigor.

Rogério Baptistini Mendes é professor de sociologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Sobre a Universidade Presbiteriana Mackenzie

A Universidade Presbiteriana Mackenzie está na 103º posição entre as melhores instituições de ensino da América Latina, segundo a pesquisa QS Quacquarelli Symonds University Rankings, uma organização internacional de pesquisa educacional, que avalia o desempenho de instituições de ensino médio, superior e pós-graduação. Possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pelo Mackenzie contemplam Graduação, Pós-Graduação Mestrado e Doutorado, Pós-Graduação Especialização, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.

Em 2021, serão comemorados os 150 anos da instituição no Brasil. Ao longo deste período, a instituição manteve-se fiel aos valores confessionais vinculados à sua origem na Igreja Presbiteriana do Brasil.

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Comentários

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    edgard feitosa 11/06/2021

    Geraldo Vandre, em sua canção "Para não dizer que não falei de flores', TEM UMA FRASE FATAL: "A FOME EM GRANDES PLANTAÇÕES", mostrando que o Brasil é um caso típico onde temos recordes e recordes de alimentos, mas o povo passa fome; isto porque nossas grandes plantações, o tão louvado AGRONEGÓCIO é apenas para EXPORTAÇÃO, para encher os bolsos dos ruralistas de bilhões de dolares, pois não se importam com a fome do povo; o Brasil é um país que sempre esteve subserviente ao capitalismo espoliativo internacional desde o descobrimento até hoje; (pau brasil; açúcar; café, borracha; soja,etc.)

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