Quem elegeu Lula não cabe em um nome

A força da horizontalidade: por que a vitória de Lula não pode ser reduzida a um único nome

Fonte: Oliveiros Marques - Publicada em 27 de outubro de 2026 às 17:22

Quem elegeu Lula não cabe em um nome

Manifestação pró-LulaCrédito: Ricardo Stuckert

Leituras sobre vitórias e derrotas eleitorais tendem sempre a simplificar, e o caminho mais curto para isso é personalizar. O método, porém, impede que se enxergue o todo e que se identifique o que deve e o que não deve ser feito nas próximas campanhas.

Jair perdeu em 2022 por culpa de Zambelli e Jefferson. Foi o que os bolsonaristas repetiram durante meses, e a versão ajudou a esconder os verdadeiros motivos daquela derrota: a conduta do então presidente na pandemia, quando a morte de mais de 400 mil pessoas poderia ter sido evitada; a verborragia preconceituosa contra negros, mulheres e homossexuais; os ataques às políticas sociais; a defesa da ditadura; o apito de cachorro para que seus adversários — leia-se o PT — fossem dizimados.

Neste ano, voltam com a mesma tática. Marçal seria o responsável pelas orientações dadas no debate da Band; Nikolas, pelo vídeo mentiroso e desrespeitoso sobre o Nordeste. A narrativa tira de pauta a fala capacitista contra Lula no debate da Globo, o preconceito contra a região Norte ao chamar Belém de capital malcheirosa e a entrevista da “futura ministra da Economia” insinuando o fim do Bolsa Família. E apaga, ainda, a soberba de quem, já no primeiro dia do segundo turno, anunciava ministros.

Do outro lado, na vitória, o cacoete é o mesmo: buscar “o” responsável, dar a ele ou a ela um nome e um rosto. Desta vez, o nome que ganha evidência é o do deputado federal Janones, o “general” do “exército de Lula” no canal de WhatsApp. Aliás, eu sou um soldado desse exército. E, antes que os críticos de Janones tentem ver em mim um aliado, adianto: considero fundamental o trabalho que ele desempenhou na campanha. Hercúleo, eu diria.

Talvez seu maior mérito nem tenha sido organizar e comandar o canal, tarefa que, por si só, exigiu enorme capacidade política e organizativa. Foi convencer uma coordenação de campanha que invariavelmente se fecha em copas, protegida pela capa da verdade absoluta e afastada da vida real. Esse foi o grande feito do general: mostrar que, do lado de fora, para além das paredes dos comitês, havia uma multidão à espera de um chamado.

Mas não, não foi Janones o responsável pela vitória de Lula. Na minha modesta opinião, é claro. Foi a horizontalidade imposta à lógica da campanha por setores que não eram orgânicos a uma estrutura quase sempre burocratizada e apartada da realidade daquele processo eleitoral. Foram os jovens de Niterói que puxaram o bonde, seguidos por estudantes de outros estados. Foram os fandoms que botaram a cara a tapa e os pés nas ruas, saindo de seus encontros quase secretos, invisíveis para outras “tribos”. Foram as torcidas organizadas, rivais no futebol, que se abraçaram e ocuparam o asfalto. Foi a comunidade LGBTQIAPN+, que tirou dinheiro do próprio bolso para produzir materiais e horas do próprio trabalho para se organizar. Foram as pessoas com deficiência que inundaram as redes. Foram os artistas e personalidades que, sem comando centralizado e movidos pela responsabilidade pública de defender a democracia e a liberdade, ignoraram os haters, a perda de contratos e de seguidores, e foram à luta. Foram os idosos que, a passos lentos, apoiados em muletas e bengalas, em cadeiras de rodas ou carregados no colo, teclaram 13 e confirmaram.

Poderia citar inúmeros outros exemplos dessa mobilização horizontal, nascida à margem de qualquer coordenação central. Foi ela, objetivamente, que construiu a vitória. Nós, marqueteiros, costumamos dizer que, quando a campanha sai do controle, é sinal de que pegou. A de Lula deixou isso claro desde a primeira manifestação no segundo turno.

Fujamos, portanto, da personalização. Lula construiu a virada histórica pela política — a política das ruas, que nasce no coração das pessoas e põe seus pés em movimento. Simples assim. Por isso, atentemos para a força da horizontalidade em uma campanha eleitoral. 2028 já está aí.

Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

Quem elegeu Lula não cabe em um nome

A força da horizontalidade: por que a vitória de Lula não pode ser reduzida a um único nome

Oliveiros Marques
Publicada em 27 de outubro de 2026 às 17:22
Quem elegeu Lula não cabe em um nome

Manifestação pró-LulaCrédito: Ricardo Stuckert

Leituras sobre vitórias e derrotas eleitorais tendem sempre a simplificar, e o caminho mais curto para isso é personalizar. O método, porém, impede que se enxergue o todo e que se identifique o que deve e o que não deve ser feito nas próximas campanhas.

Jair perdeu em 2022 por culpa de Zambelli e Jefferson. Foi o que os bolsonaristas repetiram durante meses, e a versão ajudou a esconder os verdadeiros motivos daquela derrota: a conduta do então presidente na pandemia, quando a morte de mais de 400 mil pessoas poderia ter sido evitada; a verborragia preconceituosa contra negros, mulheres e homossexuais; os ataques às políticas sociais; a defesa da ditadura; o apito de cachorro para que seus adversários — leia-se o PT — fossem dizimados.

Neste ano, voltam com a mesma tática. Marçal seria o responsável pelas orientações dadas no debate da Band; Nikolas, pelo vídeo mentiroso e desrespeitoso sobre o Nordeste. A narrativa tira de pauta a fala capacitista contra Lula no debate da Globo, o preconceito contra a região Norte ao chamar Belém de capital malcheirosa e a entrevista da “futura ministra da Economia” insinuando o fim do Bolsa Família. E apaga, ainda, a soberba de quem, já no primeiro dia do segundo turno, anunciava ministros.

Do outro lado, na vitória, o cacoete é o mesmo: buscar “o” responsável, dar a ele ou a ela um nome e um rosto. Desta vez, o nome que ganha evidência é o do deputado federal Janones, o “general” do “exército de Lula” no canal de WhatsApp. Aliás, eu sou um soldado desse exército. E, antes que os críticos de Janones tentem ver em mim um aliado, adianto: considero fundamental o trabalho que ele desempenhou na campanha. Hercúleo, eu diria.

Talvez seu maior mérito nem tenha sido organizar e comandar o canal, tarefa que, por si só, exigiu enorme capacidade política e organizativa. Foi convencer uma coordenação de campanha que invariavelmente se fecha em copas, protegida pela capa da verdade absoluta e afastada da vida real. Esse foi o grande feito do general: mostrar que, do lado de fora, para além das paredes dos comitês, havia uma multidão à espera de um chamado.

Mas não, não foi Janones o responsável pela vitória de Lula. Na minha modesta opinião, é claro. Foi a horizontalidade imposta à lógica da campanha por setores que não eram orgânicos a uma estrutura quase sempre burocratizada e apartada da realidade daquele processo eleitoral. Foram os jovens de Niterói que puxaram o bonde, seguidos por estudantes de outros estados. Foram os fandoms que botaram a cara a tapa e os pés nas ruas, saindo de seus encontros quase secretos, invisíveis para outras “tribos”. Foram as torcidas organizadas, rivais no futebol, que se abraçaram e ocuparam o asfalto. Foi a comunidade LGBTQIAPN+, que tirou dinheiro do próprio bolso para produzir materiais e horas do próprio trabalho para se organizar. Foram as pessoas com deficiência que inundaram as redes. Foram os artistas e personalidades que, sem comando centralizado e movidos pela responsabilidade pública de defender a democracia e a liberdade, ignoraram os haters, a perda de contratos e de seguidores, e foram à luta. Foram os idosos que, a passos lentos, apoiados em muletas e bengalas, em cadeiras de rodas ou carregados no colo, teclaram 13 e confirmaram.

Poderia citar inúmeros outros exemplos dessa mobilização horizontal, nascida à margem de qualquer coordenação central. Foi ela, objetivamente, que construiu a vitória. Nós, marqueteiros, costumamos dizer que, quando a campanha sai do controle, é sinal de que pegou. A de Lula deixou isso claro desde a primeira manifestação no segundo turno.

Fujamos, portanto, da personalização. Lula construiu a virada histórica pela política — a política das ruas, que nasce no coração das pessoas e põe seus pés em movimento. Simples assim. Por isso, atentemos para a força da horizontalidade em uma campanha eleitoral. 2028 já está aí.

Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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