Tempo de televisão pode ser decisivo para a campanha de Lula

"A campanha de Lula tem a chance real de reverter o crescimento esboçado por Bolsonaro", diz Cesar Calejon

Cesar Calejon
Publicada em 17 de agosto de 2022 às 09:28

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(Foto: REUTERS/Suamy Beydoun)

Começa hoje a propaganda eleitoral gratuita na televisão. Ironicamente, depois de quatro anos durante os quais as redes sociais digitais foram as protagonistas considerando basicamente todos os estudos que visaram entender a ascensão do bolsonarismo, em 2022 o tradicional tempo de televisão pode ser decisivo para a eleição de outubro, principalmente, caso a campanha de Lula saiba como usá-lo de forma efetiva.

O espaço de cada candidato é calculado com base no número de deputados federais dos partidos que aderiram as suas respectivas chapas. Esse já é o primeiro fato que demonstra, espontaneamente, a força da campanha do ex-presidente.

Lula reuniu uma bancada com 141 parlamentares que conta com o apoio de dez partidos: PT, PSB, Psol, PV, PCdoB, PROS, Solidariedade, Rede, Agir e Avante. Enquanto Bolsonaro, mesmo se valendo da máquina pública de todas as maneiras possíveis, angariou o apoio de quarenta deputados a menos do que o petista e apenas três partidos: PL, PP e Republicanos. 

Neste contexto, Lula terá duas inserções diárias de 3 minutos e 21 segundos às terças, quintas e sábados, além de algo entre sete e oito peças publicitárias diárias de meio minuto cada durante a programação dos canais abertos de televisão. Já a campanha bolsonarista se apresentará com 2 minutos e 42 segundos para as propagandas fixas e seis inserções de trinta segundos. 

A diferença pode parecer relativamente pequena, mas, no que diz respeito a rede nacional de televisão, ou seja, quando todos os canais abertos transmitirão a mesma mensagem à população nacional, não é. 

Sobretudo, porque nesta ocasião o uso de notícias falsas e outras táticas que são peculiares ao bolsonarismo e funcionam bem para o atual governo nas redes sociais digitais não poderão, em tese, pelo menos, ser aplicadas. 

Assim, a partir desta terça-feira, a campanha de Lula conta com uma vantagem significativa para abordar quatro aspectos fulcrais, a meu ver: (1) expor a estratégia do estelionato eleitoral que vem sendo conduzida pelo bolsonarismo, (2) ressaltar a crise socioeconômica, política e sanitária (sindemia) que o governo Bolsonaro agudizou severamente no Brasil ao longo dos últimos anos, (3) utilizar dados práticos, empíricos e de fácil compreensão para demonstrar as conquistas obtidas pela gestão do petista, sobretudo entre 2003 e 2010, e (4) explorar o racismo religioso que deverá ser adotado pela campanha bolsonarista contra as religiões de matriz africana. 

No jogo de xadrez, existem três etapas fundamentais: a abertura, o meio do jogo e os finais. No xadrez eleitoral, a data de hoje marca a transição da primeira para a segunda. A partir deste ponto, qualquer pequeno erro ou vacilo podem custar todo o pleito presidencial. 

Por outro lado, os acertos no meio do jogo conduzem, invariavelmente, a um final mais tranquilo no sentido de vencer a partida. Endereçando os aspectos citados de forma adequada, a campanha de Lula tem a chance real de reverter o crescimento esboçado por Bolsonaro em virtude das medidas eleitoreiras para dar o xeque-mate no bolsonarismo.

Cesar Calejon

Jornalista, com especialização (MBA) em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP. Autor dos livros 'A ascensão do bolsonarismo no Brasil do Século XXI', 'Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil' e 'Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofacismo no Brasil'

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